Publicado: 2020-12-31

Uma pandemia bate à porta: a experiência do Museu Online do Isolamento da Wanny

Universidade de São Paulo
Universidade Federal de São Paulo
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Resumo

O presente artigo traz como estudo de caso a experiência do “Museu do Isolamento da Wanny”, produzido por educandos e pelo educador Douglas Maris (responsável pela disciplina Informática Educativa na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Wanny Salgado Rocha, na rede municipal de ensino da cidade de São Paulo) em meio ao contexto pandêmico do novo Coronavírus e à imposição do isolamento social, em território brasileiro. A inspiração veio do Museu do Isolamento Brasileiro, que ajudou a conceber a proposta de unir tecnologia e o conhecimento das Ciências Humanas, visando a construção de um museu social, com destaque às memórias individuais, que tem no espaço escolar um lugar em comum. O objetivo é proporcionar o desenvolvimento das aprendizagens mediadas pelas tecnologias, de forma prática, interativa e divertida, construindo um museu que busca falar sobre a vida e os desafios de continuar lutando pela existência: um espaço para a valorização das vivências de nossos alunos por meio da arte! Em diálogo com esta prática, analisamos as influências teóricas da museologia social, aprendizagem significativa, e relação ensino-aprendizagem para a construção do projeto em curso.

1. Introdução

O presente artigo tem por objetivo discutir o estudo de caso do Museu Online do Isolamento da Wanny, criado em abril de 2020, sob o contexto pandêmico do COVID-19 na cidade de São Paulo, em território brasileiro. Para tanto, partimos da concepção da museologia social, da aprendizagem significativa e de seus fundamentos teóricos para discutir práticas pedagógicas durante as aulas de Informática Educativa à distância na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Professora Wanny Salgado Rocha, na cidade de São Paulo. Isto posto, questionamo-nos se é possível, na maior cidade do país e em uma comunidade periférica, diante da maior crise social e sanitária que vivemos, construir uma experiência educativa, sensível, significativa e lúdica. É a partir dessas preocupações que o presente artigo se constrói.

2. Museologia Social: um olhar sobre os vivos

A quem e ao quê o Museu serve? Tendo em vista o importante trabalho do museólogo brasileiro Mário Chagas, que nos traz a relevante reflexão, que deve ser precedida por qualquer ação educativa, partimos da concepção do Conselho Internacional de Museus — ICOM (2001), de que o museu é

uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e do seu entorno, para educação e deleite da sociedade. (Conselho Internacional de Museus, 2001, p. 44)

Por conseguinte, ao compreender o museu como espaço de deleite e educação da sociedade, a comunidade é alienada da sua própria história — o que Chagas critica como uma museologia necrófila, que possui pouco interesse na celebração da vida e da interação social (Centro Cultural Justiça Federal, 2020)

Tal perspectiva contrapõe-se ao olhar de uma museologia que entende a sociedade como articuladora de si, na medida em que compreende a instituição museal como aquela que olha para os vivos. Dessa forma, o museu deixa de ser permanente e estático para construir-se em relação.

Para Chagas (2020), a Museologia Social caminha ao lado dos direitos humanos. Ao parafrasear o músico brasileiro Tom Zé, com a canção “Brasil Corrupção (Unimultiplicidade)”, ele destaca que “cada homem é sozinho, a casa da humanidade” (Tom Zé & Ana Carolina, 2005). Estendendo tal reflexão, Chagas coloca a casa como ponto de partida para pensar e, assim, os museus devem ser compreendidos como abrigos da humanidade, ao estabelecerem um diálogo com as sociedades em que estão inseridos.

É em meio ao desafio do museu que existe em nós e na nossa casa (que guarda nossas memórias, sonhos e planos) que lançamos mão da construção do Museu do Isolamento da Wanny. Como elemento pulsante, o museu é pensado como potência de vida à medida que constitui um território conectado com a vida em movimento. De acordo com Marti e Santos (2020), os museus são compreendidos como lugares de memória e esquecimento, dado que promovem interações sociais, constituem-se como espaços de democratização e popularização do patrimônio cultural. Tendo isso em vista, Tolentino (2020) coloca que, ao falarmos de lembranças, precisamos pontuar que a construção delas existe por conta dos esquecimentos. A memória coletiva, como alvo de disputa, é (re)construída no presente. Desta forma, segundo o autor, a vida e a morte coexistem nos museus.

3. Uma pandemia bate à porta . E agora?

Perante a situação de crise mundial vivida a partir da pandemia do novo coronavírus, nos vimos diante do que o poeta brasileiro Ferreira Gullar coloca: a “arte existe porque a realidade não basta”. Abandonamos, aqui, a perspectiva da arte como deleite e fruição, para compreendê-la como elemento de catarse, construção de imaginários e narrativas em novos espaços de representatividade. O Museu do Isolamento da Wanny nasce, em meio a esta pandemia, no intuito de ser uma ponte com a comunidade escolar.

Se podemos pensar os museus como espaços de aprendizagem e ensino, conformando possibilidades de pluralidade de pensamento em rede, como eles podem ser pensados em uma perspectiva não presencial e não institucionalizada? De acordo com Mari e Santos (2020), “Fazer pensar a educação museal online é também compreender, conforme Certeau (2014) nos ensina, que o praticante cultural não é um consumidor passivo de conteúdos expositivos e mediações museais.” (p. 60). Por conseguinte, partimos da reflexão de que a relação dialógica estabelecida entre museu e comunidade permite que aquele seja (re)construído em relação a esta.

Para tanto, nos valemos da premissa trazida pelos inventários participativos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que compreende a comunidade como protagonista, levando em consideração o patrimônio cultural como um conjunto de referências culturais presentes na história coletiva, que constrói o senso de pertencimento e interliga as pessoas. Para compreender as manifestações dos patrimônios culturais imateriais é mais do que necessário utilizar-se do poder da escuta para identificar formas de expressão e modos de fazer que se conectam com a “raiz de uma cultura” (Florencio, 2016, p. 8).

As comunidades escolares da periferia da cidade de São Paulo têm enfrentado uma série de consequências diante do avanço da Covid-19. A publicação do decreto Nº 59.283, em 16 de março de 2020, pela prefeitura da cidade, declarou situação de emergência no município e definiu a suspensão das aulas da rede municipal, como uma das medidas realizadas para o enfrentamento da pandemia decorrente do novo coronavírus SARS-CoV-2. Esse decreto é fundamental para compreendermos a situação atual da comunidade escolar da EMEF Prof.ª Wanny Salgado Rocha. A escola, localizada no bairro Vila União, na região leste de São Paulo, marcado pela diversidade de moradores e grupos sociais, tem na desigualdade social uma das suas grandes marcas, acentuada diante do avanço da pandemia e a ampliação da onda de desemprego que já assolava o país. No entorno da unidade escolar, existem três comunidades de moradias precárias, como a favela do Tabor.

As desigualdades sociais, além de todos os impactos na alimentação, moradia, acesso a saúde e lazer, impedem o acesso à internet e aos aparelhos que permitem que o contato entre escola e comunidade não seja rompido. A situação atual ressignificou o desafio da escola, que continua sendo um pilar de suporte social mínimo à comunidade, porém, enfrentando um contexto singular.

O presente cenário ressaltou a necessidade de repensar a educação, com destaque às práticas e concepções pedagógicas. Nesse sentido, tornou-se indispensável construir um projeto que abordasse a temática do isolamento social e valorizasse as memórias individuais dos nossos educandos, construindo possibilidades para que a história da comunidade, em um momento único, fosse relatada por ela mesma.

Assim, surgiu o site do Museu Online do Isolamento da Wanny (bit.ly/2At7HLw), resultado da latente necessidade de dar espaço à vida e às diferentes vozes da comunidade escolar perante os impactos sociais e econômicos agravados pelo novo coronavírus. Trata-se de um espaço de denúncia social, mas também terapêutico, que por meio das ferramentas tecnológicas busca criar condições para a exposição dos sentimentos, das sensações, das angústias e da construção de aprendizagens significativas para nossos educandos.

A ideia de aprendizagem significativa remete ao conceito proposto pelo psicólogo americano dedicado ao campo da psicologia da educação David Paul Ausubel (1918-2008), o qual, opondo-se às concepções behavioristas – que defendiam a importância da ação do meio sobre o sujeito ao se focar no ensino (aprendizagem mecânica) –, ressaltava que o aprendizado é um processo de ressignificar conteúdos já aprendidos. Ou seja, a partir de uma abordagem cognitiva da educação, o autor defendia que os conteúdos só se tornam significativos quando são rearranjados em nossas estruturas mentais a partir de saberes já aprendidos e desenvolvidos (Ausubel, 2001, p. xii). Nesta perspectiva, considerar o conhecimento prévio e toda sua forma de sentir e ver o mundo dos educandos é fundamental para a construção de um processo de ensino e aprendizagem significativo.

Assim como Ausubel, o educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997) opôs-se ao ensino mecânico, grifado pelo autor como “ensino bancário”, destacando a necessidade de conectar a realidade da comunidade escolar à construção e efetivação do currículo na prática cotidiana. Afinal, por que “não estabelecer uma necessária ‘intimidade’ entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos?” (Freire, 1996, p. 34). Isto posto, há a compreensão de que o educando não é vazio de saberes e conhecimentos anteriores à sua presença na instituição escolar.

A partir da chamada “pedagogia crítica”, Freire traz, para o debate da educação, a complexidade das questões acerca das classes sociais. Para ele, portanto, a educação deve ser um caminho de reflexão crítica das especificidades que perpassam as comunidades escolares. Nesse sentido, uma das tarefas mais importantes da prática docente seria propiciar condições para que os educandos sejam capazes de se assumirem como seres sociais e históricos, de se conhecerem como tais, capazes de pensar criticamente suas posições sociais (Freire, 1996, p. 46).

No entanto, a proposta da construção de aprendizagens significativas se depara com a necessidade da mediação tecnológica, ainda mais diante do avanço da atual pandemia, que colocou os educandos da rede municipal de São Paulo em isolamento social, tendo nas ferramentas digitais o único contato possível com a escola.

Nessa perspectiva, o conceito de construcionismo, apresentado por Seymour Papert (Papert, 1980), como reflexão sobre o processo de aprendizagem mediado pela informática em conjunto com a prática, emerge como ideia importante no cenário contemporâneo. De acordo com o autor, é fundamental que os educandos tenham estímulos para que se interessem pelas aulas. Para tanto, seria necessário superar a escola instrucionista, estabelecendo um contato maior com a real aplicação das disciplinas no cotidiano (Papert, 1980, p. 1). Contrapondo a aprendizagem ao ensino, Papert defende a ideia de “aprender fazendo”, aproximando-se às considerações do filósofo americano John Dewey (1859-1952) que, em suas reflexões sobre a pedagogia, ressaltou o valor da conexão dos saberes escolares ao mundo cotidiano, estimulando o aprendizado do aluno por meio do fazer, em que há a manipulação de ferramentas e materiais (Dewey, 1916/2001, p. 202).

Diante do desequilíbrio entre ensino e aprendizagem na escola, com predominância do primeiro, Papert propõe que a tecnologia poderia alterar os padrões dessa desigualdade, a partir do momento em que o educando passa a se engajar na construção de um produto significativo, por meio do uso da informática (Papert, 1980, p. 2).

Foi sob as bases da ideia do museu social, destacado por Mário Chagas, e da aprendizagem significativa, proposta por autores como Ausubel, Freire, Dewey e Papert, que o Museu Online do Isolamento da Wanny surgiu como projeto norteador das ações da disciplina de Informática Educativa, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Wanny Salgado Rocha.

4. O caso do Museu Online do Isolamento da Wanny

Figure 1. Produção de Nicolly Ferreira Santos para o Museu da Wanny.

Lançando olhar para experiências como o Museu da Pessoa, em São Paulo, e o Museu do Isolamento Brasileiro, que se dedicam a refletir sobre micro-histórias de pessoas consideradas comuns, surgiu a vontade de construir um projeto similar que envolvesse a comunidade escolar. Esse último foi criado no início do isolamento social para receber, de modo virtual, as produções artísticas de brasileiros que trouxeram críticas à situação vivida.

A proposta foi de unir a tecnologia e o conhecimento das ciências humanas visando a construção de um museu social, com destaque às memórias individuais, que têm no espaço escolar um lugar em comum. O objetivo foi proporcionar o desenvolvimento das aprendizagens mediadas pelas tecnologias, de forma prática, interativa e divertida. Deste modo, pensamos na construção de um museu que busca “falar” sobre a vida e os desafios de continuar lutando pela existência, ou seja, um espaço para a valorização das vivências de nossos educandos por meio da arte.

O Projeto do Museu da Wanny reuniu, a partir do uso da ferramenta Google Classroom, 16 turmas do 5º ao 9º ano em conjunto com educandos de 3º e 4º quarto termos do Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Por conseguinte, os trabalhos tiveram início no mês de abril de 2020 e ainda estão em andamento. O Museu é composto por várias sessões de expressão artística, a partir da temática da pandemia e dos efeitos do isolamento social nas vidas dos educandos, a saber: Desenhos, Memes, Cartas, Gifs, Poemas, Microcontos, Diários e Fotos. Cada sessão marcou uma etapa do projeto, que encontrou no Google Sites a plataforma para reunir os trabalhos e construir o Museu on-line da escola.

Em cada etapa, por meio de tarefas semanais enviadas pelo Google Classroom, os educandos foram encorajados a expressar seus sentimentos, sensações, angústias e alegrias por meio de aplicativos, imagens e textos, construindo um espaço para as memórias da nossa comunidade.

As etapas do projeto se baseiam em ferramentas tecnológicas e linguagens artísticas, mantendo sempre como eixo a temática do isolamento. Na primeira etapa, foi proposta a construção de diários, por meio do Google Classroom (especificamente, o Google Docs), em que os educandos relataram, durante uma semana, os impactos da quarentena nas suas rotinas. O relato foi construído a partir das seguintes perguntas: “O que foi alterado?”, “O que foi positivo?” e “O que foi negativo?”. Exemplificamos a proposta com o relato do educando Lucas Henrique da Silva, disponível no site do museu.

“22 de abril de 2020.

Querido Diário virtual,

Bom, primeiramente olá! Prazer me chamo Lucas, e essa é a minha “rotina” durante a quarentena. Apesar de não parecer, eu procuro estudar em casa, não tanto quanto deveria, mas dou uma estudada antes de dormir. Criei novos hobbies e formas de me entreter já que o videogame não está dando conta. Aprendi a tocar violão ou melhor estou aprendendo a tocar, agora estou aprendendo a tocar a música tema do Toy Story. Criei também um blog para mim, feito para reunir testemunhos do coronavírus pela internet. Não faz muito tempo que criei o blog, mas estou recebendo um apoio imenso, e isso é muito legal! Bom, a minha rotina diária roda nesse sentido desde que começou a quarentena, mas estou muito contente com ela.”

Na segunda etapa, foi solicitado aos estudantes a criação de fotografias, por meio do uso de seus celulares. Os educandos registraram suas companhias de isolamento social e suas rotinas, trabalhando conceitos relacionados ao enquadramento e técnicas de captação de imagem.

Figure 2.Educando Benício na companhia da sua amiga Cacau.Imagem disponível no site do museu.

Na terceira etapa, foi solicitada a criação de obras artísticas, que fossem produzidas à mão e registradas por meio da fotografia e do uso dos filtros presentes nos celulares. Dentre os resultados, estão a produção de desenhos, bem como registros de atividades manuais e receitas de comida.

Figure 3. Desenho criado pela educanda Maria Eduarda dos Santos.

Na quarta etapa, foi sugerida a criação de memes. Por meio de aplicativos e sites, os educandos produziram diferentes imagens para expor, de forma divertida, suas angústias, aflições e o próprio cotidiano.

Figure 4. Meme criado pela educanda Letícia Borges. Disponível no site do museu.

Na quinta etapa, foi proposta a redação de cartas a seres de outros planetas. Mais uma vez, com a utilização do Google Docs, os educandos escreveram cartas para Marte, Júpiter e Saturno, tentando explicar o que está acontecendo na Terra e com suas vidas. A etapa é exemplificada com a carta da educanda Letícia dos Santos Pedrosa.

“Uma Carta Para Uma Amiga De Outro Mundo

Planeta Terra, Brasil, estado de São Paulo, 25 de junho de 2020.

Querida amiga Exxxscrorrrexvalda,

estamos em tempos difíceis por conta do coronavírus que já se tornou uma pandemia, mas eu e muitas outras pessoas estamos nos cuidando com a ajuda das prevenções, pois ainda não temos uma vacina ou tratamento. Os países mais atingidos estão tentando se recuperar, outros como o meu ainda estão passando por isso. Algumas pessoas ainda estão se fazendo de ignorantes não percebendo o tamanho do problema e não estão se cuidando. O meu país em específico está passando por uma crise enorme que nunca acaba, não só por conta da pandemia. O nosso governo cada dia que passa entra mais em conflito e não sabemos o que esperar do dia seguinte, mas estamos aguardando até o momento que possamos sair de casa e voltarmos com a nossa "rotina", mesmo que seja diferente de antes. Estamos fazendo várias coisas para poder nos distrair e nos sentirmos melhores. Muitas pessoas estão com dificuldades diversas, entre problemas familiares, de saúde e situação financeira. Usamos a nossa tecnologia para podermos nos comunicarmos de longe. Eu e as minhas amigas nos falamos por mensagens. Tá tudo uma loucura, tá tudo de ponta cabeça. Bom não estou feliz pela situação, mas estou me divertindo a cada dia com coisas simples. O desespero de todos está começando a diminuir mesmo que a situação esteja ruim. Bom tá sendo mais ou menos assim aqui, e aí?

Grande beijo, Lê!”

Na sexta etapa, foi pedido a construção de gifs. Com a utilização de aplicativos e sites, os educandos utilizaram pequenos recortes de vídeos para expor suas impressões da quarentena.

Na sétima etapa, foi proposta a redação de poesias por meio da utilização de aplicativos de vídeos, em que os educandos, com suas produções, performaram para a câmera, destacando suas formas de sentir. Exemplificamos esta etapa a partir do poema da educanda Beatriz Lopes de Jesus:

Dias Difíceis

Nesses dias tão difíceis,

É difícil até compor,

Tantos casos,

Tantas mortes,

Que já não sei onde vamos parar.

Ficamos tristes, ficamos entediados.

Perdemos familiares, perdemos pessoas!

Nesses dias tão difíceis,

É difícil fazer qualquer coisa.

Estudar em casa é difícil,

Estar em casa é difícil!

Por isso temos que orar ,

E pedir para Deus

Para Tudo passar.”

Por fim, os educandos foram convidados a criar microcontos para expressarem histórias do isolamento. A título de exemplo, apresentamos o microconto da educanda Heloisa de Lima Caetano, disponibilizado no site do museu:

“Eis que ela furou o isolamento. Estava tomada pela ansiedade e essa foi sua decisão.”

Após a realização dessas primeiras etapas e com material suficiente, os projetos foram reunidos e expostos em um site, construído por meio da plataforma gratuita do Google Sites. O conceito do Museu Online do Isolamento da Wanny é aberto, em construção dialógica. Ele foi concebido como um museu que “estásendo”, como destaca Mário Chagas, nunca um museu “que é”. Sendo assim, as fases de construção estão distantes de serem finalizadas, da mesma forma que estamos apartados da finalização da experiência do isolamento social.

A avaliação dos resultados foi feita por meio dos feedbacks dados pelos educandos ao longo do processo, dentro da plataforma Google Classroom. Os resultados do projeto trazem consigo as marcas da desigualdade. Afinal, por mais que o site tenha conseguido agrupar as vozes e expressões dos nossos educandos, atingindo grande repercussão na rede municipal, muitos não puderam participar da proposta, devido à falta de acesso a aparelhos eletrônicos e à internet, evidenciando os impactos da pandemia na relação e no contato entre educando e escola. No entanto, podemos ressaltar que o objetivo da construção coletiva de um museu social foi atingido e o silêncio não será esquecido.

5. Conclusão

Em meio a uma das maiores crises sociais e sanitárias já vividas em território brasileiro, o Museu Social do Isolamento da Wanny emergiu como espaço de alento e de troca afetiva entre educandos e educador, de construção significativa de conhecimentos e saberes. Isto posto, os processos educativos extrapolam o cotidiano escolar, sendo plausíveis de construção por meio de outras lógicas e linguagens, levando em consideração a potente relação entre ensino e aprendizagem. Como registro de seu tempo, o museu constitui relevante documento histórico para a memória da comunidade escolar e de seu entorno e que deverá ser recuperado para discussões pedagógicas a posteriori.

Por outro lado, o projeto (ainda em construção) não oculta o silenciamento de tantas vozes que não puderam participar e contar suas histórias, devido à gravidade da desigualdade social que assola a comunidade do Bairro Vila União. Ademais, houve um esforço extrainstitucional de acolher estes educandos em suas necessidades básicas, como oferta de alimentação por parte da própria comunidade. Porém, isto não é o suficiente para apaziguar as intempéries que essas famílias vivenciam.

Por fim, compreendemos que a educação se estabelece por meio do diálogo, da escuta ativa e do afeto, a partir do momento em que ela pretende ser uma ponte de conexão para novos mundos e novas percepções.

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