Publicado: 2020-12-31

Reflexão sobre práticas de ensino de português e espanhol durante a pandemia na Nova Zelândia

Universidade de Massey
Universidade de Massey
interação pertencimento motivação aprendizagem online afetividade interaction belonging motivation on-line learning affectivity

Resumo

Este artigo é um relato de experiências e reflexões de práticas pedagógicas adotadas durante a pandemia da COVID-19 para os cursos on-line de português e espanhol da Massey University (NZ). Antes da pandemia, esses cursos promoviam eventos presenciais e viagens de imersão para fomentar a motivação, o sentimento de pertencimento e a interação entre os alunos. Entretanto, durante a pandemia, essas atividades se tornaram inviáveis. Apresentamos neste trabalho ferramentas digitais e práticas pedagógicas que nos auxiliaram a fomentar tais aspectos em ambiente exclusivamente on-line. Apesar dos desafios impostos pelo novo cenário mundial, observamos que foi um momento importante para repensar práticas consolidadas e refletir acerca dos objetivos que almejamos para o ensino dessas línguas na Universidade.  Destacamos, também, a importância do componente emocional e afetivo – por vezes esquecido em cursos universitários e para adultos, mas extremamente importante para uma aprendizagem significativa. 

1. Introdução

O português e o espanhol são línguas minoritárias na Nova Zelândia, com apenas 0.22% e 0.83% de falantes, respectivamente, de acordo com o censo de 20181. Apesar de terem pouca expressão no país, a Massey University oferece programas para essas línguas com cursos majoritariamente on-line. Este trabalho é um relato experiências e reflexões que nos auxiliaram a fomentar a interação, a motivação e o sentimento de pertencimento dos alunos em ambiente exclusivamente on-line. Acreditamos que metodologias ativas de aprendizagem (Moran, 2015) e a aprendizagem baseadas em projetos (Condliffe et al., 2016) e em tarefas (Ellis et al., 2003) sejam potenciais catalisadores para esses aspectos.

Os cursos de português e espanhol da Massey University oferecem atividades síncronas e assíncronas. A participação nos encontros síncronos não é obrigatória - o que pode dificultar o sentimento de pertencimento que uma classe regular proporciona (Dutra et al., 2020). Isso pode ser um desafio para o professor uma vez que a dimensão social tem enorme importância e é decisiva para o processo de ensino/aprendizagem de uma segunda língua (Pica, 1987). Os estudantes adultos são, em geral, participativos e entusiasmados - características úteis em uma classe de língua. Além disso, geralmente, o mesmo grupo de alunos avança junto ao longo de vários cursos, o que auxilia a construção de uma aprendizagem colaborativa (Bassi & Dutra, 2004; Gaudet et al., 1998).Apesar disso, o ambiente on-line ainda é relativamente novo para professores e alunos e, portanto, apresenta novos desafios para o processo de ensino/aprendizagem.

Antes da pandemia, os cursos de português e espanhol promoviam eventos presenciais com o intuito de fomentar o sentimento de pertencimento e aumentar a motivação durante o processo de ensino/aprendizagem (Dornyei & Ushioda, 2009; Gardner & Lambert, 1972; Murphey, Prober & Gonzáles, 2010). Os programas de espanhol e português da Massey mantêm relações com as embaixadas da América Latina em Wellington (NZ) e recebem apoio delas para a realização de diferentes eventos, tais como: festivais de cinema, mostra de filmes, festas nacionais, lançamento de livros etc. Os programas também promoviam, de forma independente, encontros para conversação em diferentes pontos da cidade. Esses eventos configuravam-se como uma boa oportunidade para integrar os alunos com a comunidade de fala e promover o português e o espanhol no país.

Outra iniciativa bem sucedida foram as viagens de imersão2 para o Brasil e para a Colômbia. Os alunos que participaram dessas viagens sentiram-se mais motivados a continuar os cursos avançados e desenvolveram relações interpessoais com seus colegas de curso, o que facilitou o processo de ensino/aprendizagem no ambiente virtual. A importância da imersão para o aprendizado de idiomas é enorme, pois aprofunda o domínio das estruturas da língua e expande seu vocabulário. Além disso, o aprendizado em situações reais torna os estudantes mais receptivos à língua estudada (Ellis, 1999).

As atividades presenciais foram, assim, uma ferramenta poderosa para aumentar o interesse dos alunos nos cursos de língua on-line, pois eles demonstraram estar mais confiantes e apropriados de seu conhecimento linguístico após interagirem com diferentes falantes em situações genuínas de interação oral. Tais atividades, entretanto, tornaram-se inviáveis durante a pandemia. Na segunda seção, abordaremos como o uso de ferramentas digitais podem auxiliar na promoção de diferentes atividades para cursos de língua on-line. E, na terceira seção, apresentaremos os desafios e experiências do processo de ensino/aprendizado em ambiente exclusivamente on-line. Abordaremos, nessas duas seções, como diferentes ferramentas digitais e práticas pedagógicas nos auxiliaram a promover a motivação, a sensação de pertencimento e a interação em ambiente exclusivamente on-line durante a pandemia da corona vírus.

2. Ferramentas que auxiliam o aprendizado ativo

Um dos maiores obstáculos de uma aula de língua adicional (L2) é o “medo” de falar, como apontado por Barbosa (2007). O medo de falar pode ter diferentes motivos: o medo de falar “errado”, a ansiedade de falar para um grupo grande, a percepção do professor como autoridade sobre a língua etc. A divisão da turma em pequenos grupos é um recurso eficiente para diminuir os receios dos estudantes em relação à sua produção oral. Essa estratégia também pode ser utilizada em encontros on-line. Em nossos cursos, utilizamos um recurso do Zoom3, chamado Salas Simultâneas, para facilitar a discussão entre pequenos grupos e incentivar a autonomia dos alunos no uso da língua. É um recurso simples que pode ser utilizado em várias atividades, como:  produção de diálogos, debates, entrevistas entre outros. Outro recurso do Zoom que utilizamos nos cursos é a Anotação. A Anotação pode ser utilizada por todos os integrantes de uma reunião para destacar, desenhar ou escrever algo no conteúdo da tela compartilhada. Jogos, como caça-palavras, podem ser realizados de forma colaborativa com o auxílio dessa ferramenta. O Zoom permite ao professor conferir o autor de cada anotação, facilitado o processo de feedback e avaliação.

O ensino on-line tem a vantagem de propiciar um canal aberto para atividades assíncronas. Nessa perspectiva, a plataforma escolhida para o gerenciamento da disciplina tem papel fundamental para a interação entre os membros do curso. O fórum de discussão, por exemplo, é um espaço que serve para incentivar a aprendizagem ativa e a interação entre os alunos, além de ser um espaço cujas atividades são realizadas no tempo do aluno e não no tempo da aula. O Stream, plataforma Moodle utilizada pela Massey, permite o upload de arquivos audiovisuais e de texto. Dentre as atividades produzidas no fórum, destacamos: (i) produção de programas de rádio, (ii) mensagens de áudio/texto do WhatsApp, (iii) e-mails formais e informais, (iv) contação de histórias pessoais e fictícias; (v) reportagens e entrevistas. Além de simular situações reais de fala, essas atividades assíncronas promovem o planejamento e a pesquisa, o que favorece a revisão dos conteúdos e aprofunda o domínio da língua em estudo.

Figure 1.À direita exemplos de design pré-definidos pela ferramenta Ideias de Design e à esquerda a versão preliminar.

Como a universidade disponibiliza o pacote Microsoft Office 365 ProPlus para a comunidade acadêmica, o material dos cursos é produzido nessa plataforma. Diversos trabalhos mostram a eficácia de um bom design para o aprendizado (Portugal & Couto, 2010). Obviamente o professor nunca substituirá um professional de design, mas podemos nos beneficiar de recursos simples para impulsionar o processo de ensino/aprendizagem. Um recurso eficiente e simples do PowerPoint para melhorar o design dos materiais de aula de forma automática é o Ideias de Design. Essa ferramenta fornece opções pré-definidas de design tornando o material de aula mais claro, ilustrativo e atrativo. A apresentação dos materiais impacta diretamente a motivação dos alunos e esse é um recurso nativo para otimizar o design dos materiais de aula sem grandes esforços – (e.g., cf. supra Figure 1). O PowerPoint pode ser utilizado, também, para incentivar a aprendizagem ativa por meio da gamificação dos conteúdos (e.g., cf. infra Figure 2). Com o auxílio dessa plataforma, pode-se produzir quizzes, jogos de tabuleiro, caça-palavras, jogo da forca, jogo da memória etc.

Figure 2.Exemplo de jogo de tabuleiro produzido no powerpoint para aula on-line.

Nesta seção, destacamos algumas ferramentas que auxiliam a implementação de metodologias de aprendizagem ativa e motivam os alunos dos cursos on-line de português e espanhol da Massey University. Discutimos também que algumas dessas ferramentas auxiliam a sondagem de performance, o feedback e a avaliação.  Na seção anterior, argumentamos que eventos presenciais estimulam a motivação, a interação e a sensação de pertencimento. Na próxima seção, relataremos nossos desafios e experiências para promover esses aspectos em ambiente exclusivamente on-line.

3. Experiências e desafios em ambiente on-line durante a pandemia

O cenário pandêmico mundial modificou a dinâmica dos cursos de português e espanhol. Com o intuito de fornecer aos alunos mais momentos de interação, promovemos diferentes eventos on-line. Alguns desses eventos foram liderados por tutores e alunos do curso. Colocar alunos e tutores no papel de central dos encontros inverte a situação típica dos encontros síncronos - dirigidos pelas professoras. Assim, ao longo de 2020, provemos, por exemplo, uma Noite do Quiz e um Clube de Conversação4. Essas atividades incentivaram a interação entre alunos de diferentes cursos. O aprofundamento das relações interpessoais entre os colegas de classe foi importante para a construção dialógica do conhecimento e da prática da língua portuguesa em diferentes atividades do curso.

Antes da COVID-19, o programa de língua portuguesa já havia iniciado outras atividades on-line com o intuito de incentivar a autonomia dos alunos no uso da língua portuguesa. Podemos citar aqui as entrevistas on-line e o projeto de intercâmbio virtual Kiwi-Canarinho. As entrevistas produzidas pelos alunos com uma pessoa indicada pela professora deveriam ser reportadas no fórum da disciplina, incentivando o uso das modalidades oral e escrita da língua. Já o projeto de intercâmbio virtual Kiwi-Canarinho foi desenvolvido em parceria com alunos de letras/inglês da UFRJ5. Os alunos se encontravam semanalmente para conversar em português e em inglês. Essas atividades com situações reais de interação obtiveram feedback positivo dos alunos, que se sentiram mais confiantes após as atividades sugeridas.

Durante a pandemia, tivemos que reformular nosso sistema de avaliação que contava com um exame presencial. No curso de espanhol, esse exame foi substituído por uma lista de tarefas que deveria ser entregue no prazo de 48 horas.  E, no curso de português, substituímos por um artigo de opinião. Também foi preciso flexibilizar a data de entrega das avaliações, pois cada aluno foi impactado de forma singular pelos efeitos da pandemia. No português, mantivemos o projeto cultural porque essa avaliação, apesar de ter sido proposta antes da pandemia, mostrou-se bastante relevante no contexto pós COVID-19. Para essa atividade, os alunos preparavam uma pesquisa cujo tema atravessasse seus interesses pessoais e os conteúdos abordados na ementa. No curso intermediário, cuja ementa contemplava “expressar hipóteses e desejos”, os alunos desenvolveram projetos sobre suas expectativas para o mundo pós pandêmico. Esses projetos tiveram diferentes enfoques, tais como: cinema, arte, relações socioculturais, viagens, educação etc.

Por fim, cabe ressaltar que o fato de se estar vivendo em uma situação de pandemia trouxe uma enorme carga emocional na vida dos estudantes, professores e funcionários. Muitos tiveram suas vidas completamente afetadas. Por isso, adaptamos os programas de português e espanhol para atender a um aspecto fundamental do processo de ensino/aprendizagem: o componente emocional e afetivo. Foi um momento crucial para repensar as práticas educativas vigentes. Transformamos os primeiros minutos de aula num momento de debate e reflexão para compartilharmos experiências e sensações. Como dito anteriormente, também reestruturamos e flexibilizamos a ementa dos cursos para que as classes continuassem a proporcionar um ambiente confortável, acolhedor e convidativo. Além disso, foi um momento valioso para discutir com os alunos a ideia de que a aprendizagem de uma língua não deve visar resultados meramente quantitativos, mas envolve a construção de relações interpessoais e afetivas e o gerenciamento de emoções – aspectos imprescindíveis para a comunicação e para a interação sociocultural.

O desenvolvimento de eventos por alunos e tutores fomenta a aprendizagem ativa dos conteúdos e subverte o papel tradicional do professor como figura central do conhecimento. As atividades aqui descritas foram eficazes em promover, em ambiente exclusivamente on-line, a motivação, a interação e a sensação de pertencimento dos alunos. Podemos dizer que a pandemia desencadeou discussões importantes sobre os objetivos de um curso língua e a importância do aspecto emocional e afetivo para a comunicação e interação em L2.

4. Considerações finais

A reformulação de procedimentos já normalizados imposta pela COVID-19 tem sido um dos maiores desafios dos cursos on-line de português e espanhol da Massey University. Embora os eventos presenciais sejam relevantes para manter os alunos motivados e engajados, a pandemia trouxe novos desafios para o ensino de língua – visto que as formas de interação nesses cursos passaram a ser exclusivamente on-line. Além de refletir sobre metodologias on-line de ensino/aprendizado, devemos aproveitar esse momento para (re)pensar práticas educativas nas universidades. É necessário promover atividades que fomentem a interação, a sensação de pertencimento e, por conseguinte, a motivação dos alunos, sem esquecer do aspecto emocional e afetivo – muitas vezes relegado a segundo plano no ensino adulto. É necessário catalisar os aprendizados desse período a fim de construir procedimentos educativos mais adequados às novas necessidades dos estudantes e à nova realidade mundial.

Notas

1- Governo da Noza Zelândia. Tabelas de dados disponíveis em https://www.stats.govt.nz/information-releases/2018-census-totals-by-topic-national-highlights-updated

2 - Uma parceria entre a Massey University, a Education New Zealand e diferentes universidades da América Latina.

3 - Software para vídeo chamadas (https://zoom.us/).

4 - Um agradecimento especial às tutoras Amanda Aggio (doutoranda em comunicação pela Massey University) e Camila Romão (mestranda em linguística aplicada pela Massey University).

5 - Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil).

Referências

Barbosa, M. S. C. (2017). Alunos sem medo de falar: a interação oral na aula de língua estrangeira (Doctoral dissertation).

Bassi, C. E., & Dutra, D. P. (2004). A interação e o processo de negociação em L2. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, 4(1), 291-313.

Condliffe, B., Visher, M. G., Bangser, M. R., Drohojowska, S., & Saco, L. (2016). Project-based learning: A literature review. New York, Ny: Mdrc.

Dornyei, Z., & Ushioda, E. (Eds.). (2009). Motivation, language identity and the L2 self (Vol. 36). Multilingual Matters.

Dutra, M. de A., Ferreira, E. M. B., Therrien, J., & Lima, J. F. (2020). Diáspora virtual: processos de identificações e pertencimento em uma comunidade virtual de aprendizagem Research, Society and Development, 9(6), 147963572.

Ellis, R. (1999). Learning a second language through interaction (Vol. 17). John Benjamins Publishing.

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Gardner, R. C., & Lambert, W. E. (1972). Attitudes and Motivation in Second-Language Learning.

Gaudet, D. (1998). La coopération en classe: guide pratique appliqué à l'enseignement quotidien. Chenelière/McGraw-Hill.

Morán, J. (2015). Mudando a educação com metodologias ativas. Coleção mídias contemporâneas. Convergências midiáticas, educação e cidadania: aproximações jovens, 2(1), 15-33.

Murphey, T., Prober, J., & Gonzales, K. (2010). Emotional belonging precedes learning. Emoções, reflexões e (trans) form (ações) de alunos, professores e formadores de professores de línguas. Campinas, SP: Pontes Editores, 43-56.

Pica, T. (1987). Second-language acquisition, social interaction, and the classroom. Applied linguistics, 8(1), 3-21.

Portugal, C., & Couto, R. (2010). Design em situações de ensino-aprendizagem. Estudos em Design, 18(1).