Publicado: 2020-12-31

Educação básica online: ressignificar itinerários e práticas docentes

ISO Colégio e Cursos
Universidade de Ciências Aplicadas de Turku
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Resumo

Este artigo tem como objetivo apresentar de forma descritiva o processo de implementação das competências de inovação, aliadas às diretrizes da BNCC a partir da estratégia pedagógica Innopeda®.. Neste sentido, esta descrição iniciará no treinamento dos gestores, coordenadores e docentes, realizado pela equipe finlandesa da TUAS - Turku University of Applied Sciences, fazendo seu percurso até a aplicação desse conjunto metodológico, sintetizado aqui neste trabalho, finalizando com o projeto interdisciplinar Paraibando, que envolve as disciplinas de Geografia, História, Português e Artes. A partir deste trajeto, apresentaremos também o processo de transição do ensino presencial para o ensino on-line, discutindo os desafios e as soluções enfrentados em nossa jornada para alcançar uma aprendizagem significativa que desenvolva competências e habilidades diante do contexto da pandemia de Covid-19.

1. A BNCC: uma revolução copernicana para as práticas educacionais

Com a aprovação da Base Nacional Comum Curricular, a educação no Brasil ganha um novo referencial decisivo para a ressignificação das práticas educativas, seja no âmbito da formação de professores, seja no cotidiano da sala de aula. Nessa direção, preconiza-se como horizonte educativo o desenvolvimento articulado de 10 competências gerais para a educação básica, a saber1:

  1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
  2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
  3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
  4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
  5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
  6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
  7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
  8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.
  9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
  10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

O documento propõe uma revolução copernicana em termos de horizontes e perspectivas educativas para os próximos decênios. Uma leitura atenta faz emergir não somente a necessidade de articular habilidades e competências de forma holística, mas também a urgência de um novo perfil de professor, uma renovação dos currículos (até então pesadamente conteudistas e pouco flexíveis) e um novo papel do aluno enquanto protagonista em todo processo educativo.

Para repensar processos de formação inicial e continuada, o desenvolvimento de currículos flexíveis e colocar o aluno no centro do processo educativo, faz-se necessário desenvolver uma estratégia pedagógica que não tenha apenas como referencial o passado, mas que parta do futuro, ou seja, com uma visão sistêmica de competências e habilidades humanas, escolares e profissionais centradas numa aprendizagem significativa e transformadora. Como enfatizam (Kairisto-Mertanen et al., 2011) é essencial definir os objetivos, conhecimentos, habilidades e atitudes desejados referentes aos resultados da aprendizagem, que estão relacionados à capacidade de poder atuar de forma inovadora. Esses resultados de aprendizagem são chamados de competências de inovação e podem ser compreendidos para incluir dimensões individuais, interpessoais, de trabalho em rede e as competências correspondentes necessárias para produzir o conhecimento transformador.

O nosso fazer pedagógico, enquanto realidade multidisciplinar que parte das competências preconizadas pela Base Nacional Comum Curricular, e que tem como horizonte a necessidade de repensar estratégias de desenvolvimento delas para uma educação do futuro, se traduz no projeto educacional de nossa instituição escolar, que permeia toda atuação desde gestores, coordenadores e docentes. Essa mudança de mentalidade se reflete nas opções que vimos fazendo enquanto comunidade educativa de nos abrirmos ao novo, de buscarmos oferecer excelência educativa aliada a propostas consolidadas de inovação pedagógica, de desenvolvimento integral de seres humanos plenos, de cidadãos responsáveis e promotores de uma cultura da sustentabilidade e de estimular uma nova geração de líderes inspiradores. Buscamos assim ampliar nossa rede de cooperação através de parcerias significativas que de modo sinérgico possam colaborar no nosso desejo de partir do futuro para construir um presente mais humano, solidário e transformador.

2. Cooperação, internacionalização e inovação pedagógica: a educação do futuro

Em termos pedagógicos, partir do futuro significa assumir como dinamismo essencial a cooperação e a inovação pedagógica. Foi nesse sentido que o ISO Colégio e Cursos2 iniciou uma parceria com a TUAS - Turku University of Applied Sciences, na Finlândia, tornando-se a primeira escola de educação básica no Brasil a implantar a estratégia pedagógica Innopeda®.

O interesse pela estratégia pedagógica Innopeda® mobilizou os diretores e toda equipe pedagógica do ISO Colégio e cursos a desenvolverem um projeto de parceria educacional que teve início, após intenso diálogo, em 2019. A cooperação com foco na inovação educativa começou com o treinamento presencial de todo corpo pedagógico que acompanha o ensino fundamental - anos iniciais.

Assim, entre os meses de outubro e novembro foram selecionados criteriosamente, com a mentoria das professoras responsáveis pelos treinamentos Innopeda® da TUAS, os professores que iriam compor a equipe responsável pela implementação da estratégia pedagógica Innopeda® no ensino fundamental - anos iniciais. Após a realização da seleção da equipe de professores, as mentoras finlandesas responsáveis pelos treinamentos Innopeda® orientaram, durante o mês de dezembro de 2019, uma semana de imersão e treinamento presencial para os diretores, coordenadores e professores. O treinamento, focado nos pilares e competências que constituem a estratégia pedagógica Innopeda®, reforçou em todos a convicção de que,

para alcançar os objetivos da pedagogia da inovação, os alunos têm que adquirir as competências essenciais de seu próprio campo de estudo ou disciplina e, além disso, um conjunto das chamadas competências de inovação durante o processo de estudo. Espera-se que os alunos se tornem colaboradores ativos nos diferentes processos de inovação que encontrarão quando trabalharem como empreendedores ou funcionários. É essencial definir os objetivos, conhecimentos, habilidades e atitudes desejados referentes aos resultados da aprendizagem, que estão relacionados à capacidade de poder atuar de forma inovadora. Esses resultados de aprendizagem são chamados de competências de inovação e podem ser categorizados em competências individuais, interpessoais e de trabalho em rede, todas necessárias para produzir conhecimento inovador (Kairisto-Mertanen et al., 2011).

Conscientes da árdua jornada que deveriam enfrentar, a equipe pedagógica e o grupo de professores abraçaram a ideia de serem acompanhados por treinadores finlandeses da TUAS muito experientes. Após o treinamento presencial inicial, o acompanhamento seguiu on-line, individual ou em grupo. Foram anunciados desafios de elaboração de um plano estratégico de desenvolvimento pessoal e institucional focado nas competências e nos pilares de inovação e elaboração de portfólios de boas práticas realizadas em sala de aula no ensino presencial e remoto.

Os diretores da escola, com o desejo de ampliar não somente a cooperação internacional, mas também uma rede de cooperação estratégica local, iniciaram uma parceria com vistas à formação continuada do corpo de professores apostando em uma pós-graduação in company com o Centro Universitário UNIESP. Desse modo, durante o mês de março foi oferecido o primeiro módulo da pós-graduação em Educação de Impacto e Inovação Pedagógica. Devido à pandemia, a pós-graduação vem ocorrendo na modalidade à distância.

A educação do futuro não se improvisa, ela exige preparação intensa, visão estratégica e cooperação. Para inovar é preciso aprender, por isso nossos professores experimentam também aquilo que propõem: aprendizado constante, certificação de competências, experiências engajadoras que estimulam a escuta, a interação e a colaboração em encontros mensais (ISO training) para partilha de experiências e boas práticas.

3. O início de uma nova jornada: a transição do ensino presencial para o ensino on-line

Foi com olhar focado na inovação pedagógica e em uma educação de impacto que, em fevereiro de 2020, se deu a abertura de uma nova escola de Ensino Fundamental no estado da Paraíba. Focada na Pedagogia da Inovação, como estratégia pedagógica que parte do futuro e capaz de estimular um desenvolvimento educacional em que os alunos são realmente protagonistas, a equipe pedagógica do ISO Colégio e Cursos iniciou o ano escolar e se tornou a primeira escola de educação básica no Brasil a oferecer um projeto educativo que é fruto de uma cooperação que visa ressignificar o papel do professor, do aluno e provocar uma transformação educacional e social realmente significativa.

Após o primeiro mês de aulas presenciais, e diante da crise provocada pela COVID-19, o contexto educacional exigiu ações e medidas diferenciadas que tivessem em conta a realidade pandêmica que então assolava o Brasil e o mundo, sem que isso comprometesse o percurso de toda comunidade escolar. Seguindo, com particular rigor, as recomendações do Ministério da Saúde do Brasil, da Organização Mundial da Saúde e do governo do Estado da Paraíba foram decretadas férias antecipadas durante o mês de março. No mês de abril, e de acordo com as determinações do governo estadual, a unidade ISO Fundamental, que havia sido inaugurada no mês de fevereiro, deixou de ter aulas presenciais e iniciou o seu processo de ensino remoto emergencial.

Contextos emergenciais pedem discernimento do essencial e decisões humanizadoras. Em todo processo de acompanhamento do novo cenário e da necessária reflexão e tomada de decisões, acompanhou-nos o horizonte educativo e filosófico apresentado por Morin (2000) em seus setes saberes necessários à educação do futuro, especialmente no que se refere ao quesito de aprendermos a lidar com o inesperado. A inquietude e a incerteza, agora nossas companheiras de viagem cotidiana, nos levaram a perguntar o essencial: o que precisamos garantir como essencial para que saíamos deste tempo mais humanos? Para que nosso aprendizado seja realmente significativo e transformador? Na verdade, tantos outros fatos catastróficos que aconteceram ao longo do curso histórico exigiram de nós não a lamentação, mas principalmente a abertura para compreender que o “conhecimento é a navegação em um oceano de incertezas, entre arquipélagos de certezas” (Morin, 2000, p. 86).

Diante do novo cenário humano e educacional, a nossa resposta para enfrentar esse tempo foi acreditar e construir um ambiente colaborativo e positivo, mesmo em um ambiente digital. Não se tratava de ignorar a pandemia do coronavírus ou de elaborar uma narrativa de minimização da situação, mas de mostrar que o raio de impacto atingiu toda a comunidade escolar e, portanto, ela também unida, pode estar engajada em buscar as melhores soluções a serem realizadas para esse momento. Nessa perspectiva, mais do que em qualquer outro momento, tivemos que apostar em dinâmicas de aulas ainda mais encorajadoras, inspiradoras e motivadoras.

Nessa perspectiva, o ISO Colégio e Cursos iniciou em abril de 2020 o retorno das aulas em formato on-line, utilizando a plataforma Microsoft Teams, dividindo os mais de 600 alunos da escola em equipes de acordo com as suas respectivas turmas. Assim, uma nova aventura educacional foi iniciada, tendo o apoio decisivo das famílias, a imediata colaboração dos alunos e o suporte fundamental de todos os professores, equipe de coordenação e direção do Colégio.

Conscientes de que tudo que estava surgindo era novo, mas ainda não era “normal”, pudemos constatar uma sinergia que iniciou um processo essencial em toda equipe pedagógica: a disposição para aprender a aprender. Ao longo da sua formação básica nos cursos de licenciatura, os professores não haviam sido preparados pedagogicamente para este novo que agora despontava como realidade não apenas emergencial, mas cotidiana. Foi necessário iniciar processos até então desconhecidos, aprender novas linguagens, utilizar novas metodologias e consolidar a certeza de que para aprender é preciso não temer o erro, nem o que é novo.

4. É possível oferecer uma educação básica on-line que seja significativa?

Durante os primeiros meses, a transição de um ensino presencial para o ensino on-line exigiu coragem, paciência e sensibilidade. Tratava-se de um processo complexo envolvendo adaptação de toda comunidade escolar, especialmente os alunos, as famílias e os professores. Por isso mesmo, as ações pedagógicas foram sendo desenvolvidas gradualmente, com muita atenção para os feedbacks diante das novas práticas de ensino, mais focados no processo de aprendizagem do que na quantidade de conteúdos.

As aulas on-line foram sendo incorporadas ao cotidiano dos alunos e todos foram construindo confiança diante dessa nova dinâmica. Na comunidade escolar, foi-se consolidando a certeza de que era possível um processo de aprendizagem significativa on-line mesmo sob o contexto da pandemia. Na equipe de professores, a flexibilidade e o novo horizonte educativo reforçaram a convicção da urgência educativa em colocar no centro do processo os alunos e a importância da estratégia pedagógica Innopeda, através de seus pilares e competências, em todo este processo.

Uma nova dinâmica educativa se tornou evidente em todo processo de transição e adaptação, visível na evolução substancial da performance de alunos e professores com o domínio da plataforma, permitindo a utilização de atividades gamificadas com o Kahoot, murais interativos por meio do Padlet, visita a museus virtuais com os alunos, estudos do meio com o uso do Google Maps, entre diversas outras possibilidades de serem realizadas on-line.

A disposição a aprender a aprender tornou-se, neste novo contexto, um propulsor do aprender fazendo, do aprender experimentando, do aprender questionando e pesquisando e do aprender compartilhando. Mudou não apenas o habitat educacional (do presencial ao digital), mas também o habitus educacional, isto é, uma predisposição nova diante do novo, uma adaptação flexível diante do inesperado e um olhar pedagógico sistêmico, mais focado em ativar processos do que em garantir uniformização.

Outro aspecto significativo observado durante este tempo de ensino remoto emergencial foram os projetos, nos quais os alunos tiveram papel central para a sua execução em colaboração com os seus professores. Nesta perspectiva, uma vez que não se vislumbrava um retorno ao ensino presencial, no final do mês de julho, visando estimular competências de inovação específicas como a criatividade, iniciativa, networking, pensamento crítico e trabalho em equipe, a coordenação pedagógica e os docentes das disciplinas de Artes, Geografia, História e Português aprofundaram, em seus diálogos e processos pedagógicos, a necessidade da elaboração de um projeto multidisciplinar que atendesse a este novo contexto, que pudesse combinar diferentes fontes de conhecimento e que fortalecesse uma leitura do tempo e da história mais humanizada, sobretudo com um resgate da importância da memória diante do inesperado e do futuro e tivesse participação direta e ativa dos alunos.

O resultado desses diálogos e processos pedagógicos deu origem ao “Paraibando”. Trata-se de um projeto pedagógico interdisciplinar com o objetivo de desenvolver e promover as relações culturais e identitárias, no contexto da pandemia de Covid-19, reforçando um conhecimento humano, histórico, geográfico e artístico da cultura paraibana e inserido no processo de aprendizagem dos alunos do 5º ano, permitindo assim que explorem e investiguem as raízes, a memória histórica e afetiva, e noções de pertencimento à realidade geocultural da Paraíba.

Para tornar viável o desenvolvimento do projeto, e tendo em vista os mais de 200 municípios que formam a Paraíba e a impossibilidade de esquadrinhar todos eles, realizamos um recorte espacial do Estado considerando as regiões geográficas intermediárias3, a saber: Sousa-Cajazeiras (Região 1), Patos (Região 2), Campina Grande (Região 3) e João Pessoa (Região 4). Desse modo, a proposta elaborada consiste na exploração a cada mês de uma região em seus diferentes aspectos geográficos, históricos, identitários e culturais, artísticos e estéticos, linguísticos e literários.

Figure 1. Regiões geográficas intermediárias da Paraíba. Fonte: IBGE, 2017. Elaboração: Lucas Nóbrega (2020).

Para além de um recorte espacial, o Paraibando propõe pensar essas regiões aliadas a uma estratégia pedagógica. Ao longo de todo projeto, ao passar por cada uma das áreas, queremos refletir com os alunos a seguinte pergunta: o que nos torna paraibanos? À vista disso, nos interessa identificar as diferentes respostas que nos serão dadas ao longo do projeto, especialmente após terem explorado a Paraíba em sua pluralidade artística, geográfica, histórica e linguística por cada uma dessas cidades.

E na medida em que os alunos do 5º ano passam pela experiência de refletir sobre a sua identidade e o vínculo que possuem com a região em que moram, entendemos que eles passam a ter um potencial criativo para ressignificar conceitos, ideias e símbolos tradicionais da Paraíba. Por isso, um dos desdobramentos do projeto é a produção de charges, contos, desenhos, livretos, podcasts e vídeos a partir das habilidades e competências desenvolvidas no Paraibando.

Desse modo, reconhecendo o engajamento dos alunos e o compartilhamento de conhecimento desenvolvido durante a execução do projeto, eles serão laureados, ao final do projeto, com uma certificação que os transformará em “Pequenos Embaixadores da Cultura Paraibana”. Tal proposta se alicerça em promover um regime de colaboração em que os alunos possam potencializar as suas competências e habilidades, utilizando a sua criatividade para produzir diversos conteúdos inspirados pelas experiências no Paraibando que sirvam de encantamento para outros alunos.

Atualmente, o projeto está em fase inicial, mas já pudemos realizar algumas atividades em colaboração com os alunos e obter resultados parciais convincentes. Como já mencionado, iniciamos a jornada do Paraibando a partir da cidade de Sousa. Se no contexto do Ensino da História e da Geografia pudemos apresentar a importância de compreender a localização das primeiras cidades no mundo antigo próximas a rios como o caso da Mesopotâmia e do Rio Nilo para o Egito, pudemos demonstrar uma situação equivalente para o caso do Rio Piranhas e do Rio do Peixe para a cidade de Sousa. No entanto, com um detalhe significativo: a água que é fonte de vida até hoje para os sousenses está exercendo essa atividade há pelo menos milhões de anos, especialmente quando colocamos em cena os vestígios de pegadas de dinossauros nas margens desses dois rios.

A curiosidade formada sobre os dinossauros presentes em Sousa nos inspirou a convidar a paleontóloga Aline Marcele Ghilardi4, responsável por liderar uma pesquisa em 2016 na cidade de Sousa que pôde comprovar cientificamente uma espécie inédita de Titanossauro (Ghilardi et al., 2016), para um diálogo/conversa com os alunos sobre essa temática. Durante esse encontro, cumpre mencionar que a pesquisadora universitária utilizou uma didática adequada considerando o seu público-alvo, alunos de educação básica do 5º ano do Paraibando. Ela estruturou uma aula com uma sequência didática: se apresentou aos alunos, definiu o que é ser paleontóloga (uma cientista que estuda os fósseis), definiu aos alunos o que é um fóssil (registro da vida antiga), para só então chegar ao tema para o qual foi chamada a compartilhar: “A Paraíba no tempo dos dinossauros: o caso dos fósseis de Sousa”. A partir desses aspectos, ela colocou em cena também o caso dos fósseis de Sousa, desde o processo de formação das pegadas dos dinossauros até o momento de descoberta dos vestígios do Titanossauro por moradores locais.

Essa experiência trouxe ainda mais envergadura ao projeto, abrindo perspectivas daquilo que se pretende desenvolver futuramente em relação às outras regiões que serão exploradas nos próximos meses (Patos, Campina Grande e João Pessoa), pelos benefícios de se estabelecer vínculos institucionais com outros pesquisadores que possam agregar conhecimentos pertinentes ao potencial criativo dos alunos de transformar os conhecimentos apresentados em dimensões ressignificadas do seu próprio lugar no mundo, e a oportunidade de conectar esses alunos de 5º ano com outros colegas de turmas/ faixa etárias anteriores a participarem do Paraibando.

Também em estágio introdutório, na disciplina de Português, os alunos do quinto ano estão entrando em contato com a cultura paraibana por meio de gêneros textuais produzidos por escritores, compositores, chargistas, contistas, cronistas, etc. Para acompanhar o andamento do projeto pensado geograficamente do sertão ao mar, os alunos tiveram como aula inaugural a análise de uma canção do artista Chico César (nascido em Catolé do Rocha), “Mama África”. Escolhemos o trabalho principiante com a canção por ser evidente a presença deste gênero em nossas vidas: acompanha-nos desde o nascimento, com as canções de ninar e continua nos embalando por muitas fases, desempenhando os mais variados papéis em nossa biografia. Muitas de nossas histórias são marcadas por canções especiais, muitos acontecimentos são gravados em nossa memória por causa delas. Assim, pensamos que para propor práticas significativas aos nossos alunos e bastante prazerosas, a utilização deste gênero textual como motivação para o Paraibando seria uma excelente forma de se divertir e aprender mais sobre o estado.

Outra ação do projeto foi a palestra com o ilustrador paraibano Megaron Xavier, promovida na aula de Artes. Megaron Xavier ilustrou livros infantis paradidáticos, produzidos pela editora Patmos, no qual faz parte a coleção Primeira Leitura. Nesta coleção personalidades paraibanas são retratadas a partir de uma linguagem didática e infantil, a exemplo de nomes como José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga, Paulo Pontes, Eudésia Vieira e Padre Rolim. Essa coleção faz parte do programa PNLD 2020 do Governo Federal para serem distribuídas nacionalmente nas escolas. Assim, nesta oportunidade, os alunos do 5º ano do ensino fundamental I tiveram a oportunidade de conversar com Megaron Xavier, conhecer seu processo de criação, pedir dicas e sugestões para melhorarem seus desenhos e suas histórias em quadrinhos, além de conhecerem um pouco mais sobre esses paraibanos que tiveram grande influência em seu contexto histórico.

Portanto, entendemos que esse projeto aguça a curiosidade dos alunos de ensino básico a interrogar temas aparentemente estanques como a cultura local e estimula a buscar novas respostas, diante daquelas que estão disponíves. Desperta o sentido de que mesmo o passado de milhões de anos atrás, como o caso dos Titanossauros em Sousa, ainda está presente em nosso cotidiano sob a forma de espécies evolutivas. E que, fundamentalmente, é possível construir um conhecimento que não estabeleça limites ou fronteiras entre disciplinas diferentes como Artes, Geografia, História e Português.

5. Diante do futuro, continuar a aprender...

A educação básica, no Brasil e no mundo, vive tempos soberanamente desafiadores! Com a implementação da BNCC, a comunidade escolar, em todos os seus âmbitos e ambientes, é desafiada a se repensar e ressignificar. Ao colocar como tônica essencial o aprendizado por competências e habilidades, a BNCC convoca a comunidade acadêmica para repensar currículos, o ambiente escolar para repensar suas práticas e os professores para um novo dinamismo pedagógico onde também eles são lifelong learners.

Trata-se de assumir, como dissemos, ao descrever o processo inicial de implantação da estratégia pedagógica innopeda, uma urgência educativa focada numa educação que parte do futuro. A impossibilidade da permanência das aulas presenciais e o novo cenário causado por um vírus invísivel e imprevisível reforçou a necessidade de (re)descobrir caminhos possíveis diante de um novo cenário. Com uma visão humanista como premissa, buscamos valorizar pessoas e despertar processos que nos permitissem com flexibilidade manter uma educação de excelência e de impacto. No ISO Colégio e Cursos, queríamos continuar a promover uma pedagogia da inovação, inspirar a converter problemas em desafios e, ao colocarmos no centro de todo processo nossos alunos, consolidar uma cultura de colaboração e multidisciplinaridade por meio de metodologias ativas de aprendizagem, renovando deste modo o papel do professor e do aluno e fazer convergir de modo sinérgico autonomia, criatividade, pensamento crítico, trabalho em grupo e suscitar redes de colaboração que sejam transformadoras de mentalidades, da realidade social e educacional.

Acompanhou-nos sempre nas entrelinhas do fazer pedagógico a questão: é possível oferecer uma educação básica on-line que seja significativa? Diante do cenário vivido, e do que ainda falta viver, podemos afirmar que sim; é possível oferecer uma aprendizagem significativa através de plataformas on-line no contexto da educação básica. Para que essa experiência se torne uma realidade consolidada e diferenciada, é necessário engajamento de toda comunidade escolar, desde diretores, coordenadores pedagógicos, professores e a família, ao redor de uma aliança educativa que tenha como pressuposto irrenunciável um ensino humanizado e que articule o desenvolvimento de competências, habilidades, atitudes e valores que ofereçam sentido e significado.

O que pudemos propor e realizar ao longo desta jornada pedagógica (que está apenas no início!), leva-nos a uma primeira reflexão sobre a importância de uma cultura permanente de aprendizado. Trata-se não apenas de um novo horizonte para os ambientes e processos educacionais, mas do desenvolvimento de uma cultura institucional que permita ajudar alunos, professores e famílias a desenvolver dinamismos de metacognição, isto é, a capacidade de reconhecer e avaliar permanentemente a sua própria necessidade de desenvolvimento.

Um segundo aspecto permeia também nossa reflexão. Diante de uma cultura do sucesso sem esforço ou a qualquer preço, pudemos viver conjuntamente a vulnerabilidade de quem se abre ao novo, ao desconhecido, e não teme o erro, uma vez que ele também faz parte do processo de aprendizagem.

Um último aspecto é o fato de termos crescido não só na cultura do aprendizado, mas também na gestação de uma cultura da colaboração. Com frequência cotidiana, pudemos experimentar entre os professores a importância decisiva da escuta do outro, da partilha das boas práticas e do uso integrado de soluções digitais que permitissem, mesmo diante do isolamento social forçado pela pandemia, viver processos autoeducativos de valorização de experiências significativas. Afinal, os processos humanizadores não nascem por decreto, eles vivem e se consolidam na capacidade constante de saber aprender e saber fazer juntos.

Diante do futuro, como comunidade educativa e de aprendizes, continuaremos ancorados nas sublimes lições que a pandemia nos proporcionou e buscaremos avançar com simplicidade no desenvolvimento de uma cultura da inovação que não dispensa tudo o que é verdadeiramente humano. Com a multidisciplinaridade, desejamos estimular o pensamento crítico e gerar futuros cidadãos e líderes que sejam éticos e solidariamente responsáveis. Afinal, só é verdadeiramente significativa, presencialmente ou on-line, a educação que nos educa para pensar e nos estimula para um saber fazer novo e transformador.

Notas

1 - A Base Nacional Comum Curricular foi aprovada em 2017 e a sua implementação deve ocorrer até ao final de 2020. Sobre 10 as competências gerais ver Introdução. P. 9. Versão online http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf <acesso em 11 de setembro de 2020>.

2 - Escola de educação básica na cidade de João Pessoa, no Estado da Paraíba (Brasil).

3 - Em 2017, o IBGE apresentou uma nova forma de divisão das regiões do Brasil, categorizando em intermediárias e imediatas. No caso aqui referido, as regiões intermediárias são escolhidas a partir de cidades que “organizam o território, articulando as Regiões Geográficas Imediatas por meio de um polo de hierarquia superior diferenciado a partir dos fluxos de gestão privado e público e da existência de funções urbanas de maior complexidade” (IBGE, 2017, p. 20).

4 - Graduada em Bacharelado e Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mestre em Ecologia e Recursos Naturais pelo PPGERN-UFSCar e Doutora em Ciências (Geologia, com ênfase em Paleontologia) pelo PPGGl da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente Aline é professora adjunta de Paleontologia no Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em Natal, RN.

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