Publicado: 2020-12-31

Ensino-aprendizagem de línguas utilizando Zoom e Facebook: uma realidade possível

Universidade Estadual de Feira de Santana
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Claudiana Ferreira de Jesus Gonçalves

 

 

 

Universidade Estadual de Feira de Santana
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Davi Lenine Silva Temporim

 

 

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Igor dos Santos Mota

 

 

 

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Iranildes Almeida de Oliveira

 

 

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Michelle de Souza dos Santos

 

 

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Rianne Souza e Sousa

 

 

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Resumo

O contexto de pandemia nos impôs uma realidade educacional de transformação de paradigmas num espaço de tempo muito curto. Quase à velocidade da luz, tivemos que tomar decisões que mexeram com as estruturas do nosso fazer pedagógico e de como nos relacionamos com o mundo. A nossa rotina, profissional e pessoal, mudou drasticamente e, nesse movimento, escancararam-se as desigualdades e as dificuldades de acesso a bens básicos para o desenvolvimento do ensino remoto emergencial: as tecnologias digitais e a internet. Este trabalho se ambienta nessa realidade, com o intuito de apresentar uma proposta de uso de plataformas on-line nos cursos de línguas estrangeiras desenvolvidos em dois programas de ensino-aprendizagem de línguas da Universidade Estadual de Feira de Santana. Demonstraremos em que medida o Zoom e o Facebook nos foram úteis nesse contexto educativo.

1. Introdução

Em tempos de pandemia, a educação, assim como a saúde, a economia e a cultura, também sofre consequências que, de alguma forma, abalam suas bases e seus fundamentos. Inesperadamente, o mundo se viu obrigado a suspender as suas práticas pedagógicas presenciais. O contato físico, considerando-se um contexto responsável de tratamento preventivo da pandemia, deu lugar ao distanciamento e, desde março de 2020, estamos imersos nessa nova realidade que vem nos desafiando a agir diariamente em meio a tantas incertezas.

Muitas decisões são tomadas ao calor dos acontecimentos sem contarmos, sequer, com um grau mínimo de possibilidade de acertos: tomamos consciência das novas exigências do momento, decidimos e agimos. Não há muito tempo para mais que isso. Foi assim que as telas virtuais se transformaram em espaços educativos numa dimensão nunca antes vivenciada: salas de aulas, congressos, reuniões, seminários, encontros, cursos. Enfim, a educação está acontecendo no mundo virtual.

A migração das aulas presenciais para esse espaço na pandemia tem recebido muitas denominações, sendo a mais recorrente “Ensino Remoto Emergencial” (ERE). No Brasil, algumas instituições, principalmente as privadas, aderiram imediatamente a essa modalidade. Outras, tomaram essa decisão meses depois. Já a maioria das instituições públicas responsáveis pela educação básica se mantém sem poder ofertar o ERE, até o momento, por total falta de condições técnicas. Dados de um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), denominado Acesso domiciliar à internet e ensino remoto durante a pandemia, publicado em agosto de 2020, indicam que aproximadamente 3,2 milhões de estudantes da rede pública não têm acesso às atividades remotas de ensino-aprendizagem porque sequer dispõem de sinal de celular onde moram. Isto, sem acrescentar que 1,8 milhão de estudantes não têm internet em casa por questões econômicas.

Quando começamos nossas atividades não dispúnhamos da pesquisa do IPEA de 2020. Porém, a realidade da pandemia nos impulsionou a agir. Então, surgiram os primeiros questionamentos. O que fazer diante dessa realidade que a pandemia nos impôs? Deve-se cancelar os cursos ou buscar uma forma de viabilizá-los? E como viabilizá-los? Quais plataformas utilizar e como utilizá-las? Para decidir, tivemos o tempo de uma reunião de emergência no dia 16 de março, na qual fizemos uma análise rápida e verificamos que todos os nossos alunos utilizavam redes sociais. Assim, começamos nossa jornada.

Já com os nossos cursos em andamento, numa consulta a páginas web das universidades e dos centros de ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras ao redor do mundo, como na América, Ásia, África, Europa, Oceania, observamos que o ERE vem acontecendo por meio das seguintes plataformas: Zoom, Webex Meetings, Blackboard Collaborate, Google Classroom, Moodle, Canvas, FlexIT, Mediastore, Vula (plataforma criada pela universidade), Microsoft Teams, Rain Classroom e WeChat. Conforme os dados encontrados nas páginas consultadas, a escolha das plataformas para a educação remota vem ocorrendo de forma assistemática. Há instituições que indicam algumas interfaces como sugestão. Outras, sinalizam a possibilidade de uso de várias delas. Ainda, há aquelas que deixam a cargo do professor a decisão sobre a plataforma a utilizar. Quanto aos centros de ensino-aprendizagem de línguas, verificamos que adotam uma ou duas plataformas para todos os cursos, com a finalidade de padronizar o uso. A maioria escolhe as interfaces que oferecem recursos para a interação em pequenos grupos, como o Zoom.

Nos programas Portal: ensino-aprendizagem de línguas para a cidadania, inclusão social e diálogo multi e intercultural e Núcleo de Línguas do Idiomas sem Fronteiras na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), a escolha do Facebook e do Zoom seguiu um critério diretamente associado às condições dos participantes (dados os problemas de internet já conhecidos) e à democratização do acesso aos cursos por uma plataforma amigável, pouco burocrática e minimamente eficaz que possibilitasse a realização de interações. Consideramos que esta última é fundamental para o processo de ensino-aprendizagem de línguas.

Neste trabalho, não nos debruçaremos sobre discussões acerca de concepções de língua e de ensino-aprendizagem que utilizamos nos programas por questão de espaço e porque já o fizemos em Oliveira & Reis (2017). Neste artigo, descrevemos com detalhes os usos que fizemos do Facebook e do Zoom em nossas práticas pedagógicas, acreditando que possam ser úteis para quem tem uma realidade semelhante à nossa, no que diz respeito à baixa qualidade da internet e à necessidade de realização de atividades síncronas e assíncronas. Pode também ser interessante para quem precise deixar as aulas gravadas, minimizando os impactos negativos consequentes da perda de conexão ou o uso de internet de baixa qualidade durante as aulas síncronas.

2. Contextualização

Este trabalho se insere no âmbito de dois programas de ensino-aprendizagem de línguas da UEFS, como já mencionamos, e compreende as práticas desenvolvidas de março a setembro de 2020 nos cursos de inglês, espanhol e português como língua estrangeira (PLE) ofertados pelos programas. O objetivo é apresentar uma proposta de ensino remoto para a aprendizagem de línguas, realizada no contexto dos referidos programas. Os dados foram gerados a partir das experiências vivenciadas e práticas pedagógicas desenvolvidas e registradas nas plataformas Facebook e Zoom.

A pesquisa TIC Domicílios 2019, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) revelou que o Brasil tem 134 milhões de usuários de internet, o equivalente a 74% da população do país. Além disso, apontou que, em relação aos anos anteriores, o número de usuários na zona rural e nas classes D e E passou dos 50%, enquanto que, na classe A, 95% dos usuários permanecem conectados. Os dados evidenciam uma desigualdade abissal entre as classes D-E e A. Ainda, indicam onde o Estado deve potencializar as suas políticas públicas para garantir a democratização do acesso e minimizar os impactos negativos para as classes menos favorecidas.

Em nosso contexto atual de pandemia, ainda que a tecnologia seja uma grande aliada, percebemos que é desafiador propor aulas na modalidade on-line para um público cujas condições de acesso à internet são desiguais. No entanto, pensar em alternativas mais acessíveis que possibilitem a aprendizagem de línguas foi o caminho que movimentou o corpo docente dos programas a não interromper as atividades. Assim, com os cursos em andamento, buscamos explorar e testar outras interfaces para conhecer melhor a eficácia de cada uma delas quando utilizadas no processo de ensino-aprendizagem de línguas.

De acordo com os dados de 2020 do Mapa Mundial das Redes Sociais, elaborado com base nos dados da SimilarWeb e Alexa, divulgado por Vincos Blog (2020), o Facebook é a rede social mais popular do mundo. Há 2,74 bilhões de usuários ativos mensalmente, segundo relatórios da própria Facebook (2020). No Brasil, o uso de redes sociais como o Facebook é muito frequente e familiar aos brasileiros. Dados de 2019 mostram que as atividades de comunicação são as mais comuns entre os usuários de internet. Cerca de 76% utilizaram redes sociais, no referido ano (Cetic.br, 2020).

Quanto à nossa escolha, estávamos cientes de que o Facebook não é a melhor interface para o desenvolvimento da competência comunicativa em línguas estrangeiras. No entanto, comprometemo-nos a (re)conhecer esse espaço virtual como um locus propício para o ensino de línguas. Primeiro, por ele já ser utilizado por alguns cursos on-line disponíveis na internet. Segundo, por entendermos que é uma das plataformas mais acessíveis à maioria dos usuários de internet. E, por fim, por considerarmos um ambiente possível para o desenvolvimento da competência comunicativa.

Assim sendo, estudamos o Facebook para além da opção de publicações ou comunicação social. Discutimos, questionamos, subvertemos utilidades e procuramos aproveitar os recursos oferecidos pela plataforma. Dentre suas variadas funções, está a criação de grupos privados em modalidade de aprendizado social, onde as postagens de atividades, vídeos, lives, textos, listas de presença podem ser organizadas por unidades, facilitando o acesso dos estudantes a elas.

A possibilidade de sincronicidade e assincronicidade tornaram o Facebook ainda mais atrativo para nós. As lives, o registro de presença e a interação on-line pelos comentários são exemplos de atividades síncronas. As postagens de atividades de gravações de vídeos, as produções de textos, a socialização de trabalhos feitos em grupo, a leitura de textos, imagens e textos multimodais, os comentários em geral, feitos depois da aula, e a socialização das gravações das aulas desenvolvidas no Zoom são formas de atividades assíncronas. Essas postagens no Facebook são fundamentais como registro das atividades, tanto as realizadas pelos estudantes como as realizadas pelos professores. Nesse sentido, o Facebook se converte num espaço para armazenar, ilimitadamente, as atividades desenvolvidas nas aulas e toda a interação que elas proporcionam. Ele possibilita ainda, futuras consultas que permitem avaliação da evolução dos aprendentes, revisão de conteúdo e comprovação da frequência e da realização das aulas. O inconveniente é que fica a cargo do professor criar um instrumento para mapear a participação de cada aprendente nas atividades, porque o Facebook não oferece a possibilidade de obtermos um relatório de atuação de cada participante, como o Moodle.

O Zoom é uma plataforma on-line que oferece bate-papo, reuniões, videoconferências remotas e uma colaboração móvel, disponível nas versões gratuita e paga. Seu serviço é executado sincronicamente e possibilita uma comunicação imediata, com vídeo e microfone para todos os participantes, simultaneamente. Isso resulta na possibilidade de uma interação ampla e significativa para o ensino línguas remoto. Além disso, os recursos dessa interface aproximam a relação professor-aluno-material: os vídeos e microfones permitem que os participantes fiquem mais confortáveis e tranquilos ao perceber, através do áudio ou das expressões faciais, que a comunicação está sendo afetiva e efetiva, principalmente, nas salas simultâneas. Nessas salas, os sujeitos envolvidos podem aprender colaborativamente com seus pares ou grupos, pela interação cara a cara, enquanto o professor pode adentrar ao espaço para realizar intervenções mais próximas dos aprendentes e atender às necessidades desses grupos.

Considerando o panorama de atividades realizáveis nessas plataformas e a sincronicidade e assincronicidade que elas possuem, é possível pensar na complementaridade entre o Zoom e o Facebook. A eficácia do Zoom se dá sincronicamente. A impossibilidade de realização de atividades assíncronas é resolvida pelo Facebook. Este último apresenta as duas possibilidades: transmissões ao vivo e postagens. Porém, a sincronicidade oferecida pelo Facebook não é tão eficaz como a do Zoom. A live, por exemplo, só propicia uma interação básica e lenta na seção comentários.

Quanto à combinação das duas interfaces, vale informar que é possível publicar um vídeo de uma atividade e as questões sobre esse vídeo no Facebook e, em seguida, propor discussões em pequenos grupos nas salas simultâneas do Zoom. Essa combinação nos garante espaços para o registro de presenças na realização de atividades, acesso simultâneo ao material didático, interação fluida e simultânea, discussão aberta, construção coletiva de aprendizagens e acompanhamento das dificuldades específicas.

3. Metodologia

Para continuar com os cursos de forma remota, buscamos utilizar uma metodologia que promovesse o desenvolvimento das aulas, de forma a proporcionar a participação efetiva e afetiva de todos os sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.

Nesta seção, apresentaremos usos possíveis das plataformas em cursos de línguas estrangeiras e o passo a passo que seguimos em nossas atividades.

3.1. Roteirização da aula

Elaborar o roteiro das aulas é um processo crucial para a otimização do tempo nos espaços virtuais. Para facilitar a organização decidimos criar momentos bem definidos para as aulas, dentro dos quais as atividades se realizaram. Assim, o roteiro (Figure 1) se dividiu em momentos e continha: informações técnicas sobre a aula, data e duração; o link de acesso à sala no Zoom, de forma encurtada; a ordem do momento, por exemplo, primeiro, segundo; o nome da atividade de cada momento; o tempo de cada momento, indicando horário de início e fim; o nome do espaço e da plataforma nos quais as ações se desenvolveram; e o detalhamento das ações realizadas em cada momento.

Figure 1.Fragmento de um roteiro de aula.

3.2. Antes de iniciar as aulas

Ao começar as aulas foi necessário confirmar se todas as pessoas da turma tinham acesso à Internet e se havia a possibilidade de participarem das aulas on-line. Precisamos verificar se os estudantes mantinham uma conta ativa no Facebook e, em alguns casos negativos, pedimos para criarem uma conta exclusivamente para os estudos, ressaltando a importância desse espaço para a realização do curso.

3.3. Configurações do grupo do Facebook

O grupo no Facebook permite algumas configurações que facilitam a organização das aulas e atividades. Primeiro, alteramos o tipo de grupo para “Aprendizado social” porque essa função permite criar unidades e deixa o material didático digital mais organizado. Depois, criamos as unidades, que foram organizadas de acordo com as competências ou temas trabalhados em cada aula. As publicações (Figure 2 e Figure 3) foram feitas dentro da unidade correspondente.

Figure 2. Atividade de compreensão de textos em movimento.

Figure 3. Atividade de compreensão de textos escritos.

Além disso, a cada aula foi possível organizar as publicações por tópicos. Esses ficaram à disposição para que o educador decidisse como queria agrupar as postagens: a) Informes: o educador etiquetava os avisos, as diretrizes e os combinados do curso; b) Presença: o educador etiquetava a primeira publicação com registro de presença; c) Atividades: o educador incluía nesta etiqueta todas as atividades. Além disso, indicamos o dia e o mês correspondentes em cada tópico, por exemplo: Informe 23/09; Presença 23/09; Atividade 23/09. Esta prática funcionou muito bem porque deixou os registros mais organizados, facilitando a verificação do processo evolutivo de cada participante do curso ou a consulta do material de aulas realizadas.

3.4. Primeiros passos

Para começar as aulas, é imprescindível cuidar da estética da sala: posicionar-se em um espaço físico bem iluminado e silencioso, limpar ou organizar o fundo do cenário, enquadrar a câmera e posicionar-se no centro do vídeo, observando as margens superior, inferior e laterais da tela. Também se recomenda utilizar fones de ouvido com microfone e verificar o funcionamento da câmera com antecedência. Testar a qualidade de vídeo, áudio e internet evita imagens pixeladas e áudios com ruídos, que prejudicarão o andamento da aula. É importante manter o Facebook como meio de comunicação direta com a turma, em casos de intercorrências e problemas com conectividade.

No grupo do Facebook, criamos uma postagem intitulada “Dúvidas aqui” e etiquetamos como “Avisos''. Informamos que todas as dúvidas sobre quaisquer atividades deveriam ser comentadas e respondidas nessa postagem, para fins de organização. Dessa maneira, os aprendentes conseguiam ver as respostas a dúvidas anteriores dos colegas e evitavam repetir o mesmo comentário. O educador ficava atento aos novos comentários dessa postagem ou às novas notificações que apareciam no grupo, com intuito de oferecer um feedback o mais rápido possível.

3.5. Transmissão ao vivo no Facebook

Sempre iniciamos a transmissão ao vivo no Facebook dando as boas vindas e registrando a presença durante os primeiros minutos de aula. Esse tempo era necessário para que todos pudessem se acomodar e, a partir daí, acompanhar a aula. A presença era registrada de duas maneiras: os aprendentes respondiam "ok" ou "presente" nos comentários da transmissão, em tempo real, depois do comando do educador; ou o educador criava uma postagem específica para registrar a presença do dia e os participantes do curso respondiam da mesma forma nos comentários.

Após o registro da presença na aula, cada participante era convidado e encorajado a escrever algo nos comentários da live sobre a aula anterior, na língua estrangeira estudada. À medida que escreviam, o professor tecia considerações e chamava a atenção sobre questões relacionadas à escrita. Finalizado este momento, apresentava o roteiro da atual. Quando estava prevista a utilização de recursos novos, estes eram apresentados imediatamente à apresentação do roteiro. Esse momento também era muito importante para tirar dúvidas gerais da turma e explicar as atividades que aconteceriam no Zoom. Antes de encerrar a transmissão ao vivo e migrar para o Zoom, a turma era informada sobre o momento seguinte da aula. Em seguida, abria-se a sala do Zoom e enviava-se o link de acesso pelos comentários da transmissão ao vivo no Facebook.

3.6. Salas no Zoom

Dentro do Zoom, realizamos a gravação das aulas para fazer upload no grupo do Facebook. Isso permitiu que estudantes que não puderam participar de forma síncrona, acompanhassem a aula assincronamente. Foi um recurso muito utilizado inclusive por quem tinha o interesse de revisar os temas estudados.

Entre os recursos disponíveis no Zoom, estão o compartilhamento de tela e som, a troca de arquivos e as mensagens pelo chat (Figure 4), as anotações, o quadro branco (Figure 5), as salas simultâneas para atividades em duplas ou pequenos grupos. Todos foram amplamente utilizados para promover um desenvolvimento da competência comunicativa de forma eficaz, apesar das condições adversas que a pandemia nos impunha.

Figure 4. Aula no Zoom com o uso do recurso de chat.

Figure 5.Captura de tela de uma das atividades realizadas no Zoom utilizando o recurso de quadro branco.

As salas simultâneas (Figure 6) possibilitaram que o trabalho cooperativo-colaborativo se desenvolvesse nas aulas. Em duplas ou pequenos grupos, ele foi essencial para o desenvolvimento da competência comunicativa. Nessas salas foram realizadas práticas de conversação, exposição de temas para um colega, interação, discussão de temas livres ou propostos, leitura compartilhada, leitura de imagens, exposição de curta-metragem para o colega, estudo de vídeos para socializar na sala principal, jogos, criação de jogos para socialização na sala principal, entre outras atividades de interação face a face. Todos os recursos, como o compartilhamento de tela, as anotações e o quadro branco, também podem ser utilizados nessas salas.

Figure 6. Aula no Zoom com o recurso de salas simultâneas sendo utilizado.

4. Atividades desenvolvidas no Zoom e no Facebook

As atividades desenvolvidas nos cursos seguem uma concepção de material didático aberta, flexível, dinâmica e dialógica. Assim, entendemos que material didático é “qualquer coisa que possa ser usada para facilitar a aprendizagem” (Tomlinson, 2013, p. 2).

Assim, como material didático selecionamos as práticas sociais discursivas de circulação na sociedade ou pedimos que os aprendentes as selecionassem. Disponibilizamos essas práticas sociais para os participantes dos cursos no Facebook, com as propostas das atividades (Figure 7). Essas atividades provocavam interações, exposição oral e escrita, discussões, reflexões, desenvolvimento do pensamento crítico, práticas de pronúncia, estudo de aspectos lexicais, morfológicos, sintáticos, semânticos, pragmáticos, sociolinguísticos, interculturais e afetivos, jogos digitais, produções diversas orais e escritas, em registro formal ou informal.

Figure 7. Exemplo de material didático construído no Facebook.

Também consideramos material didático as produções dos aprendentes: vídeos, paródias, fotografias, poemas, cartas, e-mails, cartazes, grafites, comentários de textos diversos, artigos, resenhas, dublagens, entre outros. Todas as propostas de atividade são escritas diretamente no Facebook e os participantes respondem na mesma plataforma. As correções, reescrituras e sugestões também são feitas nela (Figure 8).

Figure 8. Correções e sugestões feitas através do recurso de comentários no Facebook.

O Facebook, além de funcionar como uma espécie de repositório do material didático, também é o próprio material, na medida que: a) o professor elabora as atividades dentro dele; b) os aprendentes, por sua vez, realizam essas atividades na mesma plataforma; c) ou, ainda, quando utilizamos os posts dos participantes do curso para promover a aprendizagem.

5. Avaliação

Outro desafio enfrentado no desenvolvimento dos cursos pelo ERE foi a avaliação. Como avaliar pelo Facebook e Zoom? Nesse caso, foi de suma importância buscar conhecer as experiências de nossos colegas da Educação a Distância (EaD). Observamos que, como na modalidade presencial, eles nos convidam a discutir sobre a função da avaliação ser contínua, motivar o crescimento, aprofundar a aprendizagem, provocar conexões que auxiliem a aprendizagem e propiciar a autocompreensão.

Chamam a atenção para as modalidades da avaliação e propõem refletir sobre quais delas atendem melhor a nossa realidade: a diagnóstica, a formativa e/ou a somativa. Para Souza & Menezes (2014, p. 167) "a avaliação formativa é a categoria que deve ser mais enfatizada na EaD, isso porque pressupõe uma noção de continuidade, busca e construção gradativa do conhecimento".

No que se refere aos critérios, é importante considerá-los como o cerne da avaliação: o que avaliar, como avaliar, quais indicadores utilizar e, a partir do diagnóstico diário, verificar o que mudar para obter melhores resultados. Otsuka & Rocha (2002) sublinham que é preciso haver flexibilidade também no estabelecimento dos critérios de avaliação. Para as autoras “não é desejável a predeterminação de um conjunto de tipos de atividades e critérios de avaliação que atendam aos objetivos de qualquer curso, em qualquer contexto” (p. 154). Utilizar portfólios digitais, vídeos, diário reflexivo, postagens e comentários como instrumentos de avaliação implica em adotar uma perspectiva flexível que aceita as mudanças contínuas como geradoras de aprendizagens e crescimento. Esse movimento não comporta a rigidez do estabelecimento prévio de critérios de avaliação. Seria interessante abrir para que esses critérios pudessem ser, inclusive, fruto de um processo de negociação entre os sujeitos envolvidos no processo: professores e participantes dos cursos.

Em nossos cursos, optamos por uma avaliação contínua, formativa, mediadora da aprendizagem, realizada a partir de instrumentos universais (apresentações orais, postagens e comentários, textos escritos, formulário de autoavaliação, compreensão de textos orais, etc.) e critérios, na maioria dos grupos, negociados com os estudantes, mas tendo como foco o desenvolvimento da competência comunicativa na língua estrangeira estudada (Figure 9 e Figure 10). O número de participantes, geralmente entre 8 e 25, permitiu levar adiante este propósito. Porém, presumimos que, em outras condições e com um número elevado de participantes, o professor fique sobrecarregado de atividades.

Figure 9. Avaliação entre os próprios alunos.

Figure 10. Avaliação do professor em atividade do participante.

6. Considerações finais

Ao desenvolver os cursos que deram origem a este artigo, percebemos que a competência digital dos aprendentes e dos professores é uma questão importante a ser considerada. Pela urgência do momento, essa competência teve que ser desenvolvida com as imersões e com o trabalho colaborativo e cooperativo que foi proposto nos espaços de formação, entendidos aqui como reuniões pedagógicas, preparação para eventos, aulas dos cursos, elaboração de materiais didáticos, leituras e discussões, estudo e testagem de plataformas, tanto para as aulas como para as atividades. Existe, inclusive, uma pesquisa em andamento circunscrita nos programas, que trata dos desafios e perspectivas nas aulas de PLE, na qual a competência digital dos estudantes é o foco do desenvolvimento e análise.

Apesar de o Zoom e o Facebook apresentarem resultados positivos, o que propomos deve ser sempre revisto e melhorado, a fim de atender melhor às pessoas que ainda não têm acesso bom à internet, incluindo os professores bolsistas e voluntários. Até então, o uso complementar das duas plataformas é o que mais tem funcionado em nossa realidade, oportunizando a continuidade dos cursos com qualidade e ganhos na formação dos usuários das línguas estudadas e do corpo docente que, por sua vez, vem se especializando mais em tecnologias digitais para fins educacionais.

Entretanto, a realidade descortinada pelas pesquisas do IPEA e CETIC.BR, sobre o acesso à internet no Brasil e as possibilidades de democratização do Ensino Remoto Emergencial, precisa ser seriamente discutida e amplamente denunciada. As classes sociais de maior poder aquisitivo continuam tendo acesso aos bens culturais e educacionais e garantindo a sua formação. Enquanto isso, as classes menos favorecidas, por não terem sequer sinal de celular ou internet, estão relegadas ao abismo das desigualdades e da miserabilidade. É obrigação do Estado Brasileiro tomar providências no sentido de criar políticas públicas que, de fato, garantam o direito à educação, principalmente em momentos de crises, a toda a população.

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