A utilização de livros digitalizados nas aulas online: limites e possibilidades

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21814/h2d.3534

Palavras-chave:

literatura infantil, tecnologia, digitalizado, e-book, escola pública, crianças

Resumo

A história mostra que a literatura vem, ao longo do tempo, apropriando-se das tecnologias existentes para continuar, cada vez mais, acessível ao leitor. A literatura conta com uma grande variedade de livros infantis em formato de e-book disponível na internet, diante disso vimos a oportunidade de utilizá-los no ambiente escolar. Mesmo que as tecnologias estejam reinventando o livro de literatura, o objetivo deste continua sendo o mesmo: entreter e transmitir conhecimento. Neste artigo, iremos abordar sucintamente a evolução do livro diante das tecnologias existentes e como a literatura se renovou para alcançar as necessidades dos usuários. Depois, faremos um breve levantamento sobre os documentos oficiais da educação brasileira que tratam da literatura infantil e das novas tecnologias digitais nas escolas. Concluindo, assim, com um relato sobre o projeto de leitura: “Viajando na literatura através da web”, que foi adaptado para tempos de distanciamento social, acerca de livros infantis digitalizados com crianças de 6 e 7 anos de uma escola pública em aulas online, numa tentativa de promover o interesse pela literatura infantil.

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1. Introdução

A escrita é um processo histórico-social que acontece devido às necessidades culturais e sociais de uma época para responder as demandas de comunicação e interação. Como tal, passou por diversas transformações até chegar às exigências de hoje. Para compreendermos, precisamos de nos apropriar do que significa literacia nas suas múltiplas vertentes, ou seja, multiliteracias ou literacias múltiplas que representam um sistema linguístico maior, como: literacia digital, literacia musical, literacia matemático, literacia científico, entre outros (Soares, 2020, p. 32)

Neste artigo, limitamo-nos à literacia digital como ferramenta para apropriação da literatura eletrónica nos processos de alfabetização e literacia de crianças em escolas públicas. Mas antes, precisamos entender o que é essa ciência e o seu processo na construção histórica das artes.

A literatura como expressão cultural é uma construção que ganhou espaço, ao longo da história da sociedade, como arte necessária para compreensão do mundo. Segundo Coelho (2000, p. 27), a literatura escrita é considerada uma linguagem distinta que caracteriza certa experiência humana e que não pode ser estabelecida com precisão, porque cada época transforma e modifica a humanidade que consequentemente modifica ideias, valores ou desvalores alterando assim a produção literária. Ainda no pensamento de Coelho, a escola é o ambiente especializado de interação do saber, o primeiro contato de muitas crianças com os estudos literários, eles acontecem justamente nesse espaço de troca.

Como podemos perceber, as obras literárias dependem das transformações culturais e sociais da humanidade bem como ao longo da história literária observamos novas elaborações para as necessidades dos leitores. Essa ciência vai-se construindo e transformando-se diante da necessidade de cada tempo. Atualmente, ela caminha pelos campos computacionais trazendo notáveis modificações na produção literária que não pode ser discriminada ou deixada de lado, pois esta está a viver sob o efeito das novas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) (Araújo, 2019, p. 83).

Ao constatar que a letradura sofreu grandes avanços, ao longo da história, e que esses progressos perpassam os tradicionais livros físicos. Surgem as seguintes perguntas: o livro eletrônico é acessível a todas as crianças de maneira igualitária? Os sistemas de ensino público possuem acervo para consulta e até mesmo para apreciação? Há projetos que contemplem a apreciação de livros eletrônicos nas escolas públicas? As leis brasileiras de educação contemplam a literatura digital como ferramenta de aprendizagem?

Neste artigo, discorreremos sobre as possibilidades de acesso das crianças à literatura infantil-eletrônica no espaço escolar público, questionando se esta é de difícil contato e manipulação ou se a literatura infantil-impressa são os melhores materiais para aquisição do saber.

Começaremos com um breve levantamento bibliográfico sobre fatores históricos da literatura e dos livros eletrónicos, tão amplamente conhecidos como e-books, que contribuem para o processo de aquisição do conhecimento e do entretenimento. No segundo momento, abordaremos os documentos legais da educação brasileira que se referem à literatura e as TICs, abordando as possíveis contribuições dadas às escolas numa construção de discursão entre os potenciais e suas limitações no ambiente alfabetizador público. E, por fim, descreveremos um projeto de literatura digitalizada posto em prática com crianças de 6 e 7 anos que se encontram em processo de alfabetização em um ambiente virtual de escola pública.

2. O uso das tecnologias na literatura

O facto de contar histórias sempre fez parte da humanidade. Antes mesmo de existir a escrita, as histórias eram passadas na modalidade oral, de geração em geração. A maior parte dos clássicos literários que conhecemos atualmente foi divulgada inicialmente como histórias orais para depois serem registrados e publicados em diversos materiais: tabuletas de argilas, pedras, papiros, pergaminhos, códices e, por fim, o livro que já conhecemos tão bem (Araruna, Pinheiro, Carneiro, 2013, p. 3). As mudanças não ocorreram apenas na tecnologia para registrar a literatura em algum tipo de material, as próprias histórias foram modificando ao longo do tempo, mas também foram ganhando novas adaptações por novos autores para se encaixarem com o público que iria consumi-las.

Como podemos perceber, a literatura sempre se adapta à sua época e, também, apropria-se das tecnologias existentes, não importando o gênero ou faixa etária já que a intenção é sempre a mesma: chegar às mãos do leitor e transmitir os seus valores. Exemplo disso, temos: os Irmãos Grimm, Calila e Dimna, La Fontaine, Perrault; autores pioneiros ao registar essas histórias orais e graças a eles não se perderam com o tempo. Um detalhe sobre os precursores da escrevedura literária é o fato de seu público alvo ser formado por adultos, mas, durante o transcorrer do tempo, as obras foram reendereçadas para o público infantil tornando-se clássicos desse subsistema. No entanto, a literatura infantil foi, por muito tempo, criticada como um gênero secundário, comparada a um mero brinquedo ou a algo útil que pudesse ensinar e até mesmo entreter uma criança (Coelho, 2000, p. 30).

A inscrição desses contos orais em papiros e pergaminhos ajudou a difundir a literatura. Contudo, foi a invenção da impressão pelos chineses, posteriormente readaptada por Gutemberg, que auxiliaram na popularização e tornando possível sua propagação pelo mundo, atravessando fronteiras e oceanos (Araruna et al, 2013; Araújo, 2019). Vale ressaltar que existiram e existem problemáticas de publicação, no passado as limitações ocorriam em razão das fronteiras físicas e dos idiomas, a partir do momento em que ocorre a impressão novas barreiras vão surgindo. O facto de possuir um livro em mãos não seria o suficiente para desvendar o seu universo, seria necessário saber ler e compreender o que estava escrito, pois o livro terminaria sendo apenas uma pilha de papéis. A oportunidade de absorver o conhecimento da leitura e escrita nem sempre foi para todos. Durante muito tempo não existiu uma preocupação massiva e houve épocas em que o livro foi considerado um inimigo.

Podemos relembrar a Idade Média em que as bibliotecas existentes ficavam trancadas sobre a proteção da Igreja Católica e os únicos que possuíam acesso eram representantes da própria Igreja ou da nobreza. Acreditava-se naquela época que o conhecimento por parte da população sobre a leitura e escrita poderia ser a ruína da sociedade (Araruna et al., 2013). No entanto, hoje em dia, observamos o incentivo da leitura e escrita de obras literárias por meio de escola, grupos de leitura, bibliotecas, editoras e, até mesmo, a facilidade de divulgação terminou por ganhar maior espaço através de blogs de livros, aplicativos e sites da internet. A leitura de livros literários ganhou um status social de grande relevância para a sociedade (Araújo, 2019, p. 82).

A literatura se apropriou das novas tecnologias digitais e uma das mais revolucionárias delas foram os e-books. Apesar de ser uma ferramenta recente, Araruna, Pinheiro e Carneiro (2013) definem os e-books da seguinte forma:

são arquivos que podem ser lidos em diversos dispositivos eletrónicos como os e-Readers (Leitores Digitais), computadores, e tablets, por ser uma mídia digital possuir como característica a portabilidade entre os dispositivos eletrônicos (p. 4).

Percebemos, nessa definição sucinta, que existem dispositivos eletrónicos deixados de fora como suporte para a leitura como o smartphone, mesmo não sendo o mais adequado, é amplamente utilizado para a leitura de arquivos e de livros eletrónicos que geralmente vêm em formatos PDF, EPUD e MOBI; sendo facilmente adquiridos na internet de forma paga ou, na sua maioria disponibilizado de forma ilegal, excluindo aqui os de domínio público. Também, precisamos considerar o ano da publicação do artigo, afinal o smartphone ainda estava a ganhar mercado e a se popularizar com os seus recursos.

Por outro lado, Reis e Rozados (2016) trazem uma definição mais ampla dizendo que são livros que existem exclusivamente no:

formato digital, não periódico, que necessita de um aparelho leitor e de um software para decodificação que viabilize sua leitura. Pode conter texto, imagem, áudio e vídeo, permite a inclusão de comentários pelo leitor, bem como o controle e ajuste de nuances de brilho, cor e tamanho da fonte (p. 2).

Sobre esta definição surgiu o seguinte questionamento quando elas dizem que são ‘livros exclusivamente no formato digital’. Então, os formatos digitalizados não entram nesta categoria de e-books? Para responder a esse questionamento, recorremos a Araújo (2019, p. 84) a qual afirma que a literatura digitalizada é idêntica ao formato impresso já que é uma forma simples de armazenar e transmitir informação, apesar das diferenças entre uma obra digital e digitalizada, ambas são nomeadas como livros eletrónicos ou e-books. Assim, as obras digitalizadas apresentam-se apenas como uma adaptação da obra impressa para o suporte digital. Dessa forma, podemos dizer que o formato digital e digitalizado são e-books com as suas respectivas diferenças de origem e acesso.

Também, devemos considerar que a tecnologia dos livros eletrónicos é bastante atual e renova-se a cada ano. Por isso, os conceitos não estão bem consolidados em relação aos e-books, mas podemos perceber que, de modo geral, as definições são semelhantes. Dessa forma, atrevemo-nos a trazer um novo pensamento, definindo de uma forma mais ampla e resumida quando dizemos que os e-book são livros eletrônicos em formato digital e digitalizado, os quais só podem ser lidos com o auxílio de software de aparelhos digitais.

Outra questão sobre os livros eletrónicos, é a variedade de formatos existentes para a leitura. De modo geral, esta variedade de e-books só beneficia o leitor, pois pode adquirir de acordo com a sua possibilidade financeira e preferência. Hoje, graças às tecnologias, podemos encontrar uma variedade de livros digitalizados, livros digitais, livros interativos multimídia, audiolivros, livro-jogo (Flatschart, 2014, p. 14). Toda essa variedade possibilita uma interatividade entre o leitor e a literatura, principalmente com o público infantil que são mais propensas às tecnologias digitais, pois, com a variedade de formatos atrativos como animações, cores, sons acabam por atrair a atenção dos pequenos leitores (Araruna et al., 2013).

Porém, não podemos nos enganar e acreditar que os e-books possuem apenas vantagens e vieram para substituir os livros impressos. Os livros eletrónicos possuem as suas desvantagens como em qualquer tecnologia: necessitam possuir o próprio dispositivo, em razão de um custo alto, excluindo, assim, uma grande parte de leitores e futuros leitores; outro problema é a leitura cansativa em aparelhos inadequados como computador ou smartphone; também a existência do analfabetismo digital que causa a exclusão de milhares de adultos (Reis & Rozados, 2016, p. 5).

Não é possível deixar de citar as vantagens mais relevantes, como: a rápida acessibilidade, pois, tendo um recurso mínimo como um smartphone conectado com à internet é o suficiente para ter uma obra em mãos, seja através de lojas virtuais ou acervo público gratuito; outra facilidade seria a pesquisa por palavras-chaves onde é possível encontrar a mesma palavra, em alguns segundos, e ainda saber a sua quantidade no livro; e também, acesso a um dicionário que fornece a explicação automática da palavra desconhecida pelo leitor, sem precisar sair do e-book; bloco de anotações; economia de papel; ajuste de tamanho da fonte (Reis & Rozados, 2016, p. 3).

Como em qualquer tecnologia existem as suas vantagens e desvantagens, mas é claro que devemos ter em mente que, mesmo com todas essas mudanças nas obras literárias, o intuito principal para o público infantil continua em atrair o pequeno leitor/ouvinte a experimentar as possíveis eventualidades de um mundo real ou fantástico, podendo estar presente diversas possibilidades de conhecimento: linguístico, afetivo, intelectual, ético, social, cultura, político (Coelho, 2000, p. 31). Mesmo o livro apresentando-se de forma simples para este público, ele pode despertar a sua consciência critica, mostrando-se que a diversão pode estar associada ao conhecimento.

3. Breve olhar sobre os documentos legais da educação em relação à literatura e às tecnologias

Não que os livros eletrónicos se tenham tornado apreciado durante a pandemia, a sua popularidade ganhou espaço nas últimas décadas, o que se tornou comum foi a utilização da literatura infantil-eletrónica nos espaços formais de educação.

Com a pandemia, alunos e professores foram forçados a continuar o processo de ensino-aprendizagem em ambientes virtuais. Assim, aquele contato com livros impressos que aconteciam nas salas de aula, na biblioteca ou em locais recreativos, deixou de existir. Para contornar esse problema e para que os alunos não perdessem o vínculo com a literatura, a solução foi fazer uso dos e-books.

Afinal, a literatura infantil deve começar a ser explorada ainda nos primeiros anos de vida da criança, mesmo que seja um mero ouvinte. Esse primeiro contato com as narrativas são de extrema importância, pois, segundo Coelho (2000, p. 11), a iniciação da criança no mundo da literatura antes mesmo do processo de alfabetização ajudará no seu processo de aprendizado da leitura e escrita. A escola deve continuar esse envolvimento da literatura com a vida escolar do aluno, pois esse ambiente é o maior espaço de iniciação à vida literária do estudante podendo desenvolver um hábito pela leitura que o levará por toda sua vida.

Esse direito é esclarecido em alguns documentos da educação que trazem de forma sucinta a introdução da literatura infantil na vida dos alunos, como o Plano Nacional de Educação (PNE) e as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCNEB).

No PNE é possível ver a introdução da literatura na Meta 5 para auxiliar na alfabetização das crianças na idade certa, já que se espera desenvolver a literacia para que se possa utilizar em diferentes contextos (Brasil, 2015, p. 85). Por esse motivo, a literatura infantil é vista como mais uma ferramenta para auxiliar na alfabetização, deixando claro que o devido valor no documento não teve sua real importância.

Outro tópico que não é mencionado no PNE, são as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC). O documento visa alcançar objetivos básicos para a educação brasileira, mas não podemos deixar de lado que a cultura digital cada vez mais está a estabelecer-se na vida dos estudantes, embora haja uma resistência das escolas na utilização desses recursos ou apenas querem fazer o uso mínimo deles. Hoje com a necessidade do distanciamento social vimos como as TDICs não podem sair do ambiente escolar, uma vez que elas são uma ferramenta para ser explorada.

No DCNEB, é reconhecida a importância da literatura e das tecnologias digitais por toda a Educação Básica. No documento, é estimulado o uso dos TDICs devendo ser incentivados por métodos didático-pedagógicos por toda Educação Básica, posto que faz parte dos currículos transversais sendo utilizados tanto por alunos quanto por professores, sabendo que ambos possuem formas diferentes de receber esse tipo de tecnologia (Brasil, 2013, p. 67).

Porém, quando analisamos a Resolução sobre a Educação Infantil não notamos nenhuma referência ao uso das ferramentas digitais com as crianças. Existe apenas atenção na literatura infantil que deve ser utilizada de forma prazerosa, lúdica e divertida e, assim, haja uma aproximação da leitura e escrita, sendo recomendada a leitura diária em sala de aula e o manuseio livre dos livros proporcionando experiências prazerosas (Brasil, 2013, p. 94). A atenção dada à criança na fase da pré-leitura é de extrema importância, pois, segundo Coelho (2000), o adulto agirá como ‘agente estimulador’ que fará a criança “encontrar com o mundo contido no livro, como também para estimulá-la a decodificar os sinais gráficos que lhe abrirão as portas do mundo da escrita” (p. 35).

Já no Ensino Primário, não há nenhuma distinção entre os anos iniciais e finais, sendo tratado um período de tempo único. Assim, é recomendado que a escola proporcione diversas formas de experiência e, a cada ano, haja uma ampliação e continuação da literatura, criando maior oportunidade na exploração nas características da literatura, ao mesmo tempo em que se apropria (Brasil, 2013, p. 121).

Em relação TDICs, elas só são enfatizadas no Ensino Primário como recurso aliado ao desenvolvimento do currículo numa proposta para que ocorra uma inclusão digital e, também, haja uma construção crítica sobre a tecnologia, tanto dos alunos quanto dos professores (Brasil, 2013, p. 136). Assim, o DCNEB não faz referência sobre uma possível associação na utilização das ferramentas digitais junto com a literatura, ambas sendo vistas em momentos diferentes na vida escolar do estudante.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) faz uma revisão de documentos anteriores da educação, com isso consiste em uma maior importância à literatura infantil. A BNCC mostra que a literatura infantil deve começar ainda nos primeiros anos escolares e ir-se ampliando no decorrer dos anos. Na Educação Infantil, o documento coloca a literatura infantil no campo de ‘escuta, fala, pensamento e imaginação’. Esse é um dos cinco grandes campos de experiência, em que a literatura infantil se encontra para ser desenvolvida de forma intencional com o objetivo de promover a criança e, assim, ela possa contribuir como um ser ativo e singular pertencente a um grupo social (Brasil, 2018, p. 42).

Já nos anos iniciais do Ensino Primário, a literatura encontra-se entre um dos dez tópicos das competências para esse ciclo escolar, pois ela é vista como um dos motores que impulsiona a prática de leitura, ocasionando a transformação e humanização da criança (Brasil, 2018, p. 87). Mesmo que o aluno seja um leitor fluente, o incentivo por parte dos professores é de extrema importância para que haja a motivação e estimulo à leitura, e também possa aparar possíveis dificuldades que venham adquirir durante o processo de leitura (Coelho, 2000, p. 36).

Assim, como na DCNEB, na BNCC, é apenas destacada a literatura nos primeiros anos escolares das crianças, deixando de lado a importância das TDICs. Mas com a pandemia, vimos que as novas tecnologias não podem ser deixadas para as últimas etapas da Educação Básica, afinal, cada vez mais, o contacto com as ferramentas digitais ocorre mais cedo entre as crianças; em alguns momentos, parece que já nasceram a saber manusear um smartphone ou tablet. Em contrapartida, o primeiro contacto com a literatura infantil-impressa vem a acontecer cada vez mais tarde, em alguns casos só ocorre em ambientes escolares.

Assim, como nos outros documentos, na BNCC também não é feito nenhum ajuste entre a literatura e as ferramentas digitais, mas a pandemia mostrou que o uso dessas ferramentas pode ser feito em qualquer etapa da Educação Básica e, também, fazer uso de e-books nos ambientes escolares. E que a leitura de livros infantis é o meio ideal para desenvolver não só as potencialidades naturais, como também auxiliar no processo de amadurecimento das fases da infância e da vida adulta (Coelho, 2000, p. 43).

4. Projeto de leitura em ambiente de aulas online: desafios e possibilidades

O distanciamento social e aulas a acontecer de maneira remota ainda no ano de 2021 e, sabendo da necessidade de continuar o processo de alfabetização e literacia de crianças que se encontram no primeiro ano do Ensino Primário, surgiu o interesse em dar continuidade ao projeto que acontecia de forma presencial nas salas de aulas de uma escola pública no Município de João Pessoa, chamado Maleta de Leitura.

Esse projeto consistia em que todas as sextas-feiras fosse sorteada uma criança que levaria para casa um livro de literatura infantil para ser lido pela família. Em seguida, na segunda-feira quando a mala, que no português do Brasil se diz “maleta”, voltava à sala de aula, a criança recontaria a história para as demais em um círculo de leitura. Acontecendo, assim, o incentivo à leitura e à ampliação da oralidade como ferramenta alfabetizadora.

Mas como dar continuidade a um projeto de leitura de forma online? O desafio foi em transformá-lo em algo que fosse possível acontecer no modo virtual. Foi pensando assim que surgiu o projeto “Viajando na Literatura através da Web”. Esse projeto consistiu em enviar livros de literatura infantil digitalizado em formato PDF que estivessem disponíveis, de modo gratuito em sites ou bancos de dados da internet, para os alunos.

Para que o projeto pudesse acontecer, foi necessário uma reunião com a equipe pedagógica da escola, na qual expusemos o projeto a ser desenvolvido e os objetivos que gostaríamos de alcançar com a proposta. Também foi relatada a necessidade das crianças explorarem a diversidade literário-infantil para que, assim, conseguissem ampliar o conhecimento e a apropriação do fazer social do livro, que consiste em tornar a leitura algo prazeroso e necessário para a aquisição do conhecimento. Além disso, a acessibilidade para a literatura de livros infantis amplia o reportório das crianças e proporciona momentos de encontros afetivos entre os familiares na hora da leitura.

Com o projeto pronto, foi necessário enviar aos pais, através do aplicativo de WhatsApp, um comunicado informando o seguinte: a importância da leitura para as crianças; o potencial de crescimento a partir do incentivo à leitura e como iria acontecer o projeto. Todas as sextas-feiras, seria enviado um livro da Literatura infantil digitalizado em formato PDF para os responsáveis das crianças pudessem ler e, na segunda-feira, as crianças enviariam um áudio ou um vídeo a recontar as histórias e o que entenderam delas.

Assim, iniciou o projeto de leitura: “Viajando na Literatura através da Web”. Nas primeiras semanas, grande parte dos alunos enviavam os áudios ou vídeos a recontar as histórias da forma que tinham entendido ou mesmo relatando quem eram as personagens. À medida que o número de atividades didáticas aumentava, os pais acabavam por deixar de lado a leitura dos livros infantis e, conforme as semanas iam passando, quase nenhum áudio ou vídeo era enviado. Para contornar esse problema, passamos a enviar os livros digitalizados a cada quinze dias com a mesma proposta: às segundas-feiras, as crianças responderiam através de vídeos ou áudios. Mesmo assim, o momento da entrega dos áudios ou vídeos continuava difícil, pois os pais esqueciam-se de ler para as crianças no final de semana.

Outra estratégia foi utilizar o livro infantil nas aulas síncronas como elemento principal da atividade didática. A cada encontro, era realizado uma reapresentação da literatura e apresentado um vídeo sobre o livro. Dessa forma, as crianças familiarizavam-se tanto com a literatura digitalizada quanto com as histórias contadas nos vídeos encontrados no YouTube. Assim, as atividades passaram a ser refletidas na compreensão da literatura como ferramenta de aprendizagem para que o projeto alcançasse o maior número de alunos possíveis presentes nas aulas online.

O projeto apresenta um grande potencial de incentivo à leitura e, também, a possibilidade de chegar a um número maior de crianças, destacando que a maioria dos familiares possuem, pelo menos, um smartphone como dispositivo conectado à internet, o que facilita o encaminhamento dos livros de literatura infantil digitalizados para os alunos.

Outro incentivo será a doação de livros físicos, no final do ano letivo, para as crianças que mais participarem no projeto. Tudo isso, na tentativa de estimular ainda mais a leitura e apropriação desta arte fascinante: a literatura infantil. Mesmo que ela seja física, digital ou digitalizada, a leitura leva-nos a diferentes mundos e possibilita-nos de vivenciar diferentes situações que podem enriquecer ainda mais as nossas vidas.

Afinal, o objetivo do projeto “Viajando na literatura através web” é justamente incentivar o interesse do maior número de crianças à leitura de livros literários por meio dos livros digitalizados, ampliando a prática com os meios disponíveis.

5. Conclusão

Neste artigo, percebemos que o processo de aperfeiçoamento ocorrido durante todo o percurso da literatura como ferramenta da arte sofreu bastante mudança. Ela nasceu da necessidade social e cultural de um tempo e, dessa necessidade, foi se moldando de acordo com cada sociedade e chegando ao maior número de pessoas possíveis.

Outro facto que podemos destacar é, à medida que a literatura infantil foi se popularizando, o acesso aos livros físicos pôde chegar a um número maior de crianças quando ingressasse na escola. No entanto, o mesmo não podemos afirmar a respeito da literatura digital ou digitalizada, pois ela ainda é um recurso de difícil manipulação. Isso acontece tanto no ambiente escolar como no ambiente doméstico já que necessita de recursos tecnológicos, de investimento e de conectividade para que possam ser reproduzidas e apreciadas de forma igualitária.

Mesmo as leis definindo que é importante o contato às múltiplas literacias, é percetível que a literacia digital ainda se encontra distante do ambiente escolar público. As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCNEB), como mencionadas no decorrer desse trabalho, reconhecem a importância da literatura e da tecnologia, mas as políticas públicas criadas para o acesso à Educação Infantil e aos anos iniciais do Ensino Primário foram superficiais e perderam-se com as mudanças de poderes políticos. Exemplo disso, vimos o Programa Mais Educação que incentivou o acesso às TICs, mas que se restringia a um número pequeno de estudantes impossibilitando que mais crianças vivenciassem esse mundo digital. Contudo, percebemos que é possível criar estratégias com o objetivo de contribuir e estreitar os vínculos entre literatura digital e digitalizada no ambiente escolar. O projeto “Viajando na literatura através da Web possibilitou aproximação das novas formas de literacias digitais a partir de ideias simples e de fácil manuseio. Basta possuir um aparelho eletrónico conectado à internet que é possível viajar no mundo fantástico da literatura infantil e, assim, formar novos leitores mesmo estando distantes do ambiente escolar.

Conseguimos concluir que os e-books vieram para ficar, principalmente, com o público infantil que, cada vez mais cedo, vivencia a conectividade através das diferentes telas que lhes são oferecidas e que ainda há maneiras de se criarem projetos que contemplem a acessibilidade de crianças oriundas da escola pública para vivenciar esse mundo da literatura infantil. Bastam os sistemas de ensino ofertarem o mínimo possível para que essa conectividade continue presente na escola.

Referências

Coelho, N. N. (2000). Literatura infantil: teoria, análise e didática (1.ª ed). Moderna.

Araruna, W., Pinheiro, A., & Carneiro, G. (2013). A influência dos livros digitais no acesso a informação: Uma comparação entre o livro digital e o impresso. Múltiplos Olhares em Ciência da Informação, 3(2). http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/69639

Araújo, M. (2019). A leitura, por crianças pequenas, de obras de literatura digital e digitalizada. Leitura: Teoria & Prática, 37(75), 81-99. https://doi.org/10.34112/2317-0972a2019v37n75p81-99

Brasil (2018). Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/

Brasil (2015). Plano Nacional de Educação PNE 2014-2024. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. http://portal.inep.gov.br/documents/186968/485745/Plano+Nacional+de+Educa%C3%A7%C3%A3o+PNE+2014-2024++Linha+de+Base/c2dd0faa-7227-40ee-a520-12c6fc77700f?version=1.1

Brasil (2013). Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, Conselho Nacional da Educação. http://portal.mec.gov.br/docman/julho-2013-pdf/13677-diretrizes-educacao-basica-2013-pdf/file

Flatschart, F. (2014). Livro Digital Etc. Brasport.

Reis, J., & Rozados, H. (2016). O Livro Digital: Histórico, definições, vantagens e desvantagens. Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias. Manaus. http://hdl.handle.net/10183/151235

Soares, M. (2020). Alfaletrar: Toda criança pode aprender a ler e a escrever (1.ª ed.). Editora Contexto.

Publicado

31-12-2021

Como Citar

de Lima, K. D. ., & Ribeiro, G. (2021). A utilização de livros digitalizados nas aulas online: limites e possibilidades. H2D|Revista De Humanidades Digitais, 3(2). https://doi.org/10.21814/h2d.3534