Chamadas

REVISTA 2i | ESTUDOS DE IDENTIDADE E INTERMEDIALIDADE

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 3 (2021) : ESTÉTICAS E POLÍTICAS DA MODA: ‘OS LOUCOS ANOS 20’ E DEPOIS

Data limite para submissão de colaborações: 15 janeiro 2021
Editores: Eunice Ribeiro e Maria do Rosário Girão dos Santos

Apresentação

Tomando a palavra ‘moda’ na aceção restrita que a articula com o vestuário — aqui incluindo o conjunto de ornamentos, adereços e maquilhagem que ajudam na teatralização e espetacularização de um corpo apresentado para além da sua presença física mais literal —, propomos neste número da Revista 2i encetar uma revisão sobre um século de moda, abordando-a num contexto intermedial e tomando como ponto de partida os ‘Loucos Anos 20’ na cultura ocidental. A década de 20 firma a rutura no que respeita à moda, tendo em conta que quanto mais ‘nervosa’ ou frenética é uma época, mais trepidante é o ritmo das suas alterações. Com a entrada no mundo de trabalho e o assumir da vida pública, em particular no caso das mulheres, a segunda década do século XX inicia um novo discurso visual que se reflete em roupas mais desinibidas e sedutoras, em estilos em que o conforto se sobrepõe à estética. A descoberta do corpo, advinda da transformação do modo de vida (desporto, saúde e lazer, em estâncias termais e balneares), bem como a criação de estruturas industriais, carreiam a massificação da moda (a forma tubular do vestuário, o cabelo curto à garçonne, os longos colares das flappers e o sapato ‘todo-o-terreno’, agilizando os passos do Charleston) e conferem-lhe um look andrógino.

Se Paul Poiret advoga que a moda não é material, mas fundadora da identidade e configuradora de uma certa esfera cultural, Elsa Schiaparelli, admiradora dos surrealistas, cria camisolas com efeitos de ‘trompe-l’oeil’, influenciados por Chirico, Miró e Cocteau. Coco Chanel revoluciona os códigos do vestuário feminino e, na proximidade de Picasso, Braque e Stravinsky, desenha os figurinos de A Sagração da Primavera, ponto de partida para o cruzamento da moda, da pintura, do bailado e do cinema. Entretanto, estrelas de cinema e it girls divulgam as novas tendências, imitadas à saciedade.

Kleinder machen Leute (“As roupas fazem as pessoas”): o provérbio alemão, como recorda Erik Peterson (1995), merece ser lido num sentido epistemológico, pois o próprio homem é feito do que veste (satisfazendo o vestuário desejos ou necessidades de decoração, pudor ou proteção, segundo Flügel), na medida em que não é interpretável por si próprio. A história da moda, desde a invenção da máquina de costura impulsionada pela Revolução Industrial do século XIX, à publicação das primeiras revistas e figurinos de moda (Le Jardin des Modes), à implantação de grandes armazéns citadinos (templos ou catedrais do comércio moderno, segundo Zola), até ao reconhecimento sócio-profissional de costureiros, estilistas e designers servindo clientelas de elite ou à intervenção globalizada dos atuais influenciadores digitais, reflete conceitos, paradigmas, valores diferenciados que desenham, dinamicamente, o perfil da nossa própria humanidade, da nossa relação com o corpo e das nossas estratégias de autorrepresentação. Dos ‘Loucos Anos 20’ até 2020, a moda tem vindo a alterar-se de contínuo, a par do Zeitgeist, o espírito do tempo. E até o adereço. Um ‘adereço’ moderno, obrigatoriamente usado como proteção e por precaução, tornou-se, sob a égide da moda, um adorno: a máscara anti-pandémica.

Enquanto campo estético e político, e configurando um fenómeno sócio-cultural e semiótico de definição complexa, com direta intervenção no recorte de identidades singulares ou coletivas, a moda, falada e falante (Massimo Baldini), admite que a pensemos sob múltiplas e diversas perspetivas e em diferentes contextos comunicativos. Eis alguns tópicos que apontamos como possíveis trajetos reflexivos para os textos a submeter ao presente n.º da Revista:

 

Alguns tópicos acolhidos neste número da revista

  • Conceitos e paradigmas: moda, aparência, beleza
  • Visões do corpo: do puritanismo vitoriano ao strip-tease, pudor e narcisismo
  • A nudez como vestuário: nudez e desnudamento; a assinatura da pele e as práticas do tatoo e do peircing; o pós-humanismo e a pele artificial (cf. Bart Hesse); máscaras e maquilhagens
  • Sociologia da moda: a ‘moda’ e o ‘traje’ enquanto imitação no espaço e imitação no tempo (cf. Gabriel Tarde); a moda como influência e como discriminação; ‘exotismo’ e etnicidade; marcas, mercados e digital influencers
  • Políticas da moda: a domesticação do ‘gosto’ versus a moda como afirmação, denúncia ou reivindicação; moda e feminismo; a autoridade da farda
  • Estéticas, linguagens e estilos da moda: entre o local e o global; entre individuação e hibridação; entre tradição e vanguarda; entre luxo e pronto-a-vestir
  • A moda na literatura e nas outras ‘artes’: ícones ficcionais de moda; a literatura e as artes como reflexo e/ou como inspiração

  

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 2 (2020) :  FIGURAS DO PÓS-HUMANO: LIMIARES DO CORPO E DA MÁQUINA

Data limite para submissão de colaborações: 31 maio 2020
Editores: Cristina Álvares, Sérgio Guimarães de Sousa e Ana Lúcia Curado

Apresentação

Em Nous, animaux et humains, Tristan Garcia defende que a conceção do humano que subjaz ao humanismo moderno está a atravessar uma crise profunda, operada por duas tendências de sinal contrário: uma tendência interna que fragmenta o «nós» humano em múltiplos «nós» comunitários (etnias, religiões, raças, géneros, orientações sexuais); e uma tendência extensiva que alarga o círculo do «nós» às outras espécies animais e até à totalidade do vivente.

Acresce o facto, não despiciendo, de ocorrer uma reformulação do humano por via do irrestrito triunfo tecno-digital. Neste sentido, o «nós» conecta-se, e de uma forma cada vez mais íntima e impercetível, com a tecnologia e os seus constantes devires. Assim se compreende que nesta tendência que inclui na esfera do humano aquilo que o humanismo moderno dela excluía, não cabem apenas os outros seres vivos, mas também as máquinas. Com elas os humanos mantêm formas várias e cada vez mais intensas de interação, de interdependência, de continuidade, de hibridação (ciborguização, biónica, robótica). O desenvolvimento exponencial das tecnologias (NBIC), contribui poderosamente para a reinvenção do humano, através, por exemplo, da manipulação genética ou da digitalização das redes neuronais.

Com base nos avanços da tecnociência, o pós-humanismo e correntes afins preconizam uma (trans)mutação real do ser humano capaz de ultrapassar decisivamente a sua extrema vulnerabilidade física e genética e as suas limitações cerebrais. O h+ declara a obsolescência do Homem tal como o conhecemos e proclama a aceleração da evolução através de uma reforma antropotecnológica das características da espécie que pode chegar ao abandono do corpo biológico e sua substituição pelo corpo mecânico ou pela vida virtual. O pós-humano é, pois, na senda da realidade aumentada, um humano aumentado, cuja juventude e vigor são altamente duráveis, que se (re)cria a si mesmo e à sua progenitura, que não tem doenças e se habilita à amortalidade, que controla as suas emoções e paixões, que tem uma capacidade acrescida para o prazer, e para a arte; enfim, um humano elevado à superior escala de excelência tecno-digital, cujos efeitos e cujo impacto ainda estão longe de serem discerníveis em toda a sua abrangência.

Tudo isto implica uma drástica redefinição das fronteiras do humano no sentido da crescente perfectibilidade. E se algumas implicações dessa redefinição profunda afiguram-se nitidamente positivas e exaltantes, outras não são sem suscitar ceticismo e reservas: a refundação das propriedades do humano implicará que um robot sapiens é humano? Por onde passa a linha entre perfectibilidade e monstruosidade? Como equacionar a convivência da humanidade com formas superiores de hegemonia tecnológica? O que será da solidariedade dos viventes na Arca-Terra face às manifestações do h+? Não será o pós-humanismo um novo antropocentrismo assente em postulados teo-tecnológicos como a invulnerabilidade e/ou a mutabilidade ilimitada da vida humana?

 

Principais temas acolhidos neste número da revista

  • Figuras do pós-humano na literatura e/ou nos limiares intermediais
  • Géneros do pós-humano: SF, fantástico, pós-apocalíptico, nanoficção…
  • O pós-humano entre pensamento científico e pensamento mítico
  • Pós-humanismo e animalismo
  • Sexualidades pós-humanas