Chamadas

REVISTA 2i | ESTUDOS DE IDENTIDADE E INTERMEDIALIDADE

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 4 (2021) : LITERATURA E FOTOGRAFIA: OUTRAS CARTOGRAFIAS DO OLHAR

Data limite para submissão de colaborações: 31 maio 2021
Editores: Isabel Cristina Pinto Mateus, José Cândido de Oliveira Martins e Duarte Belo

Apresentação

Desde as suas remotas origens na antiguidade clássica que a imagem "fotográfica" do real refletido numa superfície espelhada exerce um enorme poder sedutor sobre os homens. Narciso apaixona-se pelo seu próprio reflexo e perde-se nas águas, Perseu vê-se confrontado com a imagem de um outro refletida na superfície polida do escudo e vence a temível Medusa. Sedução não isenta de perigos, talvez por isso o pensamento sempre tenha desconfiado da imagem e dos seus poderes, não cessando de a analisar, de a interrogar, de construir narrativas em torno dela. Susan Sontag lembra que a realidade "has always been interpreted through the reports given by images" (On Photography), mas não é menos verdade que essas imagens são o resultado de um olhar, um modo particular de ver o real. "Uma  foto é sempre invisível: não é ela que nós vemos", afirma R. Barthes em  La Chambre Claire; em última instância, a fotografia confronta-nos com a nossa própria imagem.

Celebrando quase dois séculos de longa e intensa história, desde os primeiros daguerreótipos oitocentistas de Daguerre e Nièpce, passando pelos retratos de Hill e Nadar e as experiências pioneiras deste último na utilização da luz artificial ao captar as imagens dos subterrâneos de Paris ou nos ensaios da fotografia aérea, a Fotografia afirma-se como técnica e arte omnipresente e particularmente atuante no primeiro quartel do séc. XXI. Os novos meios digitais democratizaram a um ponto impensável o sonho analógico da Kodak nos finais de oitocentos, tornando a fotografia acessível a todos,  disponível ao alcance de um telemóvel; o mundo global abriu-lhe novas paisagens e horizontes criativos, e o autorretrato digital, a "selfie", converteu-se numa das imagens icónicas da contemporaneidade, tendo em 2013 a designação sido reconhecida como palavra internacional pelo Oxford English Dictionary.

Desde o seu início, não é possível pensar a Fotografia sem conceder grande destaque às relações com outras artes e saberes, incluindo tensões e desafios entre as funções pragmáticas e a dimensão estética. Hoje mais do que nunca, em tempos de poéticas de hibridismo, a Fotografia tem uma vocação congenialmente interdisciplinar. Se as relações primordiais com a pintura e o cinema são conhecidas, hoje as possibilidades estéticas são infinitamente mais vastas, potenciadas pelas interfaces com várias linguagens (artísticas ou outras, particularmente as digitais, abrindo-se a formas híbridas intermediais (performing hybridity). O aparecimento dos drones e a imagem aérea do mundo ("aerial shot") abriram, por sua vez, relações intermediais que vão dos documentários às séries televisivas, alterando a nossa forma de olhar o mundo.

Face ao sugerido e numa cartografia do híbrido intermedial, numa sociedade como a atual, num horizonte pós-moderno, a Fotografia levanta hoje novas interrogações, face a problemáticas contemporâneas, desde a reinvenção no digital, à relação com outros média, sem esquecer o pós-humano, entre outras tendências do nosso tempo. Hoje mais do que nunca, impõem-se novas literacias da imagem, cumprindo assim a profecia de W. Benjamin: "O analfabeto do futuro será aquele que não souber ler as fotografias, e não o iletrado" (Pequena História da Fotografia).

Com o tema enunciado — "Literatura e Fotografia: Outras cartografias do olhar" — pretendemos assim abarcar novas cartografias fotográficas, tendo em conta renovadas identidades e intermedialidades. Por todas estas razões, entendemos muito pertinente refletir criticamente sobre estas temáticas, tendo em conta os tópicos a seguir apresentados.

Alguns tópicos acolhidos neste número da revista

  • Fotografia e formas de memória
  • Fotografia, paisagem, natureza
  • Fotografia e literatura
  • Fotografia e outras linguagens artísticas
  • Fotografia, identidades, retrato
  • Fotografia, corpo, género
  • Fotografia e ciência
  • Fotografia e narrativas digitais/intermediais
  • Pós-fotografia e pós-humano
  • Fotografia como performance

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 3 (2021) : ESTÉTICAS E POLÍTICAS DA MODA: ‘OS LOUCOS ANOS 20’ E DEPOIS

Data limite para submissão de colaborações: 15 janeiro 2021
Editores: Eunice Ribeiro e Maria do Rosário Girão dos Santos

Apresentação

Tomando a palavra ‘moda’ na aceção restrita que a articula com o vestuário — aqui incluindo o conjunto de ornamentos, adereços e maquilhagem que ajudam na teatralização e espetacularização de um corpo apresentado para além da sua presença física mais literal —, propomos neste número da Revista 2i encetar uma revisão sobre um século de moda, abordando-a num contexto intermedial e tomando como ponto de partida os ‘Loucos Anos 20’ na cultura ocidental. A década de 20 firma a rutura no que respeita à moda, tendo em conta que quanto mais ‘nervosa’ ou frenética é uma época, mais trepidante é o ritmo das suas alterações. Com a entrada no mundo de trabalho e o assumir da vida pública, em particular no caso das mulheres, a segunda década do século XX inicia um novo discurso visual que se reflete em roupas mais desinibidas e sedutoras, em estilos em que o conforto se sobrepõe à estética. A descoberta do corpo, advinda da transformação do modo de vida (desporto, saúde e lazer, em estâncias termais e balneares), bem como a criação de estruturas industriais, carreiam a massificação da moda (a forma tubular do vestuário, o cabelo curto à garçonne, os longos colares das flappers e o sapato ‘todo-o-terreno’, agilizando os passos do Charleston) e conferem-lhe um look andrógino.

Se Paul Poiret advoga que a moda não é material, mas fundadora da identidade e configuradora de uma certa esfera cultural, Elsa Schiaparelli, admiradora dos surrealistas, cria camisolas com efeitos de ‘trompe-l’oeil’, influenciados por Chirico, Miró e Cocteau. Coco Chanel revoluciona os códigos do vestuário feminino e, na proximidade de Picasso, Braque e Stravinsky, desenha os figurinos de A Sagração da Primavera, ponto de partida para o cruzamento da moda, da pintura, do bailado e do cinema. Entretanto, estrelas de cinema e it girls divulgam as novas tendências, imitadas à saciedade.

Kleider machen Leute (“As roupas fazem as pessoas”): o provérbio alemão, como recorda Erik Peterson (1995), merece ser lido num sentido epistemológico, pois o próprio homem é feito do que veste (satisfazendo o vestuário desejos ou necessidades de decoração, pudor ou proteção, segundo Flügel), na medida em que não é interpretável por si próprio. A história da moda, desde a invenção da máquina de costura impulsionada pela Revolução Industrial do século XIX, à publicação das primeiras revistas e figurinos de moda (Le Jardin des Modes), à implantação de grandes armazéns citadinos (templos ou catedrais do comércio moderno, segundo Zola), até ao reconhecimento sócio-profissional de costureiros, estilistas e designers servindo clientelas de elite ou à intervenção globalizada dos atuais influenciadores digitais, reflete conceitos, paradigmas, valores diferenciados que desenham, dinamicamente, o perfil da nossa própria humanidade, da nossa relação com o corpo e das nossas estratégias de autorrepresentação. Dos ‘Loucos Anos 20’ até 2020, a moda tem vindo a alterar-se de contínuo, a par do Zeitgeist, o espírito do tempo. E até o adereço. Um ‘adereço’ moderno, obrigatoriamente usado como proteção e por precaução, tornou-se, sob a égide da moda, um adorno: a máscara anti-pandémica.

Enquanto campo estético e político, e configurando um fenómeno sócio-cultural e semiótico de definição complexa, com direta intervenção no recorte de identidades singulares ou coletivas, a moda, falada e falante (Massimo Baldini), admite que a pensemos sob múltiplas e diversas perspetivas e em diferentes contextos comunicativos. Eis alguns tópicos que apontamos como possíveis trajetos reflexivos para os textos a submeter ao presente n.º da Revista:

Alguns tópicos acolhidos neste número da revista

  • Conceitos e paradigmas: moda, aparência, beleza
  • Visões do corpo: do puritanismo vitoriano ao strip-tease, pudor e narcisismo
  • A nudez como vestuário: nudez e desnudamento; a assinatura da pele e as práticas do tatoo e do peircing; o pós-humanismo e a pele artificial (cf. Bart Hesse); máscaras e maquilhagens
  • Sociologia da moda: a ‘moda’ e o ‘traje’ enquanto imitação no espaço e imitação no tempo (cf. Gabriel Tarde); a moda como influência e como discriminação; ‘exotismo’ e etnicidade; marcas, mercados e digital influencers
  • Políticas da moda: a domesticação do ‘gosto’ versus a moda como afirmação, denúncia ou reivindicação; moda e feminismo; a autoridade da farda
  • Estéticas, linguagens e estilos da moda: entre o local e o global; entre individuação e hibridação; entre tradição e vanguarda; entre luxo e pronto-a-vestir
  • A moda na literatura e nas outras ‘artes’: ícones ficcionais de moda; a literatura e as artes como reflexo e/ou como inspiração