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REVISTA 2i | ESTUDOS DE IDENTIDADE E INTERMEDIALIDADE

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 6 (2022) : A PROSOPOPEIA HOJE: POÉTICAS E POLÍTICAS

Data limite para submissão de colaborações: 15 julho 2022
Editores: Amândio Reis e José Bértolo

Apresentação

No seu sentido original, a figura retórica da prosopopeia consiste em "pôr o discurso na boca dos outros". Assim, Quintiliano define-a como um recurso que permite "apresentar os pensamentos íntimos dos nossos adversários como se eles estivessem a falar consigo mesmos" (Institutio Oratoria IX, 2, pp. 29-32). Enquanto dádiva ou imposição do discurso, portanto, e ainda que seja norteada pela verosimilhança, a prosopopeia põe muitas vezes em cena uma crise da identidade, um desafio aos preceitos da representação realista e uma concretização em linguagem de uma "impossibilidade natural" (Riffaterre, 1985, p. 110).

Se a generalidade das definições apresenta a prosopopeia como uma atribuição de vida ao inanimado e/ou de expressão ao ineloquente, fazendo dela a figura tutelar da criação de pessoas fictícias, pode inferir-se que todo os atos associados à ficção e à representação estão de algum modo vinculados ao fenómeno da prosopopeia. No entanto, tornando mais preciso o uso desta figura, ela tende a associar-se sobretudo à personificação, ou seja, à atribuição de faculdades humanas a objetos ou seres não-humanos. Em suma, por via de um mecanismo atuante da linguagem, a prosopopeia visa "dar um nome, um rosto ou uma voz a alguma coisa que não os possui" (Miller, 2016, p. 107).

Na história e na crítica da literatura, a prosopopeia tem uma presença discreta, mas importante. O género da fábula, por exemplo, assenta num princípio de antropomorfismo, e a literatura gótica oferece-nos uma vasta galeria de figuras retratadas que se emancipam das molduras em que estão contidas, esculturas que ganham vida, ou seres autómatas, de que é um caso paradigmático Der Sandmann, de E.T.A. Hoffmann, que inspirou Sigmund Freud na conceptualização do Unheimliche como o que é reconhecível no estranho.

Porém, não obstante as suas raízes na retórica e no âmbito da literatura, a prosopopeia estende-se aos domínios de outras artes. Na história da pintura, são frequentes as representações que a tematizam, regressando, por exemplo, ao episódio ovidiano da transformação da Galateia de marfim em carne e osso, por artistas como Edward Burne-Jones ou Jean-Léon Gérôme. No cinema, a prosopopeia pode ser analisada do ponto de vista temático (em histórias de fantasmas, autómatas, animais que falam, robots) e também teórico. Por um lado, vários pensadores dotaram a câmara de qualidades eminentemente humanas ao descrevê-la como um "cine-olho" (D. Vertov) e atribuir-lhe "uma inteligência maquínica" (J. Epstein), isto é, subjetividade e consciência. Por outro lado, o cinema oferece muitas vezes planos subjetivos que dão acesso ao ponto de vista de seres não-humanos e objetos inanimados (o burro de Au Hasard Balthazar, de Robert Bresson, ou a boneca de Aniki Bobó, de Manoel de Oliveira). Além disso, tendo em conta a própria natureza do medium, que associa a imagem à palavra, ou o rosto à fala, e a sua relação intrínseca com o fantasmagórico e o espectral, o cinema revela-se um dispositivo especialmente adequado à prosopopeia enquanto "ficção de uma apóstrofe a uma entidade ausente, morta ou sem voz, oferecendo-lhe a possibilidade de resposta e conferindo-lhe o dom da palavra" (De Man, 1984, p. 77).

Desde a antiguidade, mas também no contexto contemporâneo, multimédia, no qual ela encontra funções novas e outras possibilidades de realização, a prosopopeia serve igualmente propósitos poéticos e políticos. A par de estudos de narratologia e estilística, no âmbito dos animal studies, da ecocrítica, do pós-humanismo ou da thing theory tem havido um crescente interesse em questionar conceções antropocêntricas da vida e da arte, procurando colocar o não-humano no centro das indagações, dando-lhe rosto e voz. Assim, o n.º 6 da Revista 2i pretende reavaliar conceptualizações e usos da prosopopeia nas várias artes, ao longo da História e em contexto interdisciplinar.

Alguns tópicos possíveis de reflexão:

  • A prosopopeia e outras figuras de retórica (personificação, apóstrofe, alegoria, dialogismo, hipotipose, etopeia);
  • Ficção, narrativa e corporizações da prosopopeia: esculturas, retratos, autómatas, fantasmas, divindades e entidades sobrenaturais;
  • A prosopopeia e o Unheimliche;
  • Prosopopeia e morte: o fantasmagórico e o espectral;
  • Prosopopeia, sonho, alucinação e surrealismo;
  • Marionetismo, ventriloquismo e a máscara;
  • Prosopopeia, descrição e alegoria (paisagens, objetos, abstrações);
  • Teoria dos géneros: horror, conto de fadas, fábula, ficção científica, epitáfio;
  • Prosopopeia como questionação do antropocentrismo: estudos do animal, ecocrítica, pós-humanismo;
  • Magia, animismo, hierofania, possessão;
  • A prosopopeia no Antropoceno: a "vida" dos elementos minerais e geológicos;
  • Metáforas prosopopeicas no pensamento sobre a arte (o olho da câmara, a mudez ou a expressividade do papel, a corporeidade da pedra, etc.);
  • Thing theory e a vida dos objetos.

Referências:

  • De Man, P. (1984). The Rhetoric of Romanticism. Nova Iorque: Columbia UP.
  • Epstein, J. (2014). Écrits complets, Volume V, 1945-1951: L’Intelligence d’une machine, Le Cinéma du Diable et autres écrits. Paris: Independencia Éditions.
  • Miller, J. H. (2016). Western Theories of Poetry: Reading Wallace Stevens's "The Motive for Metaphor". In Ranjan Ghosh & J. Hillis Miller, Thinking Literature across Continents. Durham e Londres: Duke UP.
  • Quintilianus, M. F. (1959). The Institutio Oratoria, edição e tradução de H.E. Butler. Cambridge: Harvard UP, The Loeb Classical Library.
  • Riffaterre, M. (1985). Prosopopeia. Yale French Studies, 69 (107-123).
  • Vertov, D. (1984). Kino-Eye: The Writings of Dziga Vertov, edição de Annette Michelson e tradução de Kevin O’Brien. Berkeley/Los Angeles/Londres: University of California Press.

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 5 (2022) : FACES E ÂNGULOS DA INTERMEDIALIDADE: TERMINOLOGIA E DISCURSO INTERSEMIÓTICOS

Data limite para submissão de colaborações: 15 janeiro 2022
Editores: Ana Cláudia Munari Domingos e Lars Elleström

Apresentação

Em Cultura das mídias, cuja primeira edição é de 1992, Lúcia Santaella já apontava para o modo como sobretudo as instâncias de produção e consumo de bens culturais reinventavam-se a partir dos novos meios. Em 2006, em Convergence culture, Jenkins, a partir do viés de uma economia da cultura e do entretenimento, propunha pensar essas mudanças a partir da convergência das mídias, focalizando então a internet e, assim, sinalizando para a contribuição dos consumidores. Ainda que Jenkins utilize o verbo to "colide" para falar das (rel)ações entre as "velhas" e "novas" mídias, é a mesma linha de pensamento de Santaella que se manifesta: as mídias não se excluem, elas interagem de diferentes formas.

É assim que nos anos 90 o conceito de "intermidialidade" é utilizado para colocar em xeque antigas noções que, ainda hoje, são utilizadas na compreensão das relações entre as mídias: a própria noção de mídia; a perspectiva da arte como objeto de análise; a interdisciplinaridade; a intertextualidade.

Claus Clüver, em um de seus textos cabais para os estudos dos fenômenos intermidiais, publicado em 1997, salientava para a perspectiva transdisciplinar dos "estudos interartes", a partir de conceitos então pouco conhecidos, seja pela Teoria da Literatura, na Literatura Comparada, seja nos Estudos Culturais, como tradução intersemiótica e ekphrasis. Ainda que Clüver tratasse das relações intermidiais a partir dos Estudos Interartes, como deixa claro o título de seu trabalho, ele mostra como pesquisadores já traziam à tona essas interações a partir de formas e textos que subvertem a ideia das artes como um critério conceitual para a análise desses fenômenos. É através de dois trabalhos, "Inter textus / inter artes / inter media" e "Intermediality and interart studies", publicados em 2001 e 2008, respectivamente, que Clüver atualiza esse foco de análise, demarcando um norte para os Estudos em Intermidialidade, sobretudo em Língua Portuguesa. Em 2005, a criação do Grupo de Pesquisa Intermidialidade junto ao CNPq, agência de fomento da pesquisa científica brasileira, coordenado pela Profa. Dra. Thaïs Diniz (UFMG) e pelo Prof. Dr. Clüver (Indiana University), concretiza esse campo de estudos no Brasil.

Essa pequeníssima e redutora síntese nos permite chegar aqui para afirmar outro lugar comum: a cultura midiática, a convergência dos sempre ou nunca novos meios, a transdisciplinaridade que a análise desses fenômenos exige, apontam para a "babel" que tem sido o discurso acadêmico sobre as relações intermidiais. Enquanto a diferença entre os múltiplos e distintos campos e áreas que observam os fenômenos intermidiais é positiva, como o é para as ciências em geral, o discurso que os focaliza torna-se problemático, visto, muitas vezes, contribuir para ruídos de comunicação e, muito mais, por deixar de ser cooperativo e colaborativo para a compreensão da comunicação, que é a razão fundamental e centralizadora dos estudos em Intermidialidade.

Esse dossiê, ao apontar essas questões, instiga para proposições conceituais e metodológicas, assim como análises de fenômenos a partir delas, que contribuam para um discurso transdisciplinar para os Estudos em Intermidialidade. Esse chamado, assim, intenciona encontrar os meios para o diálogo cujo discurso possa ser compreendido e debatido por pesquisadores de diferentes sistemas semióticos.

Principais temas acolhidos neste número da revista

  • Teorias, objetos e práticas dos Estudos em Intermidialidade
  • O conceito de mídia, midialidade, modo e modalidade
  • Categorizações e descrições dos fenômenos intermidiais
  • Os diferentes prefixos do discurso acadêmico sobre as mídias: inter, intra, multi, mix, trans
  • Metodologias para análise dos fenômenos intermidiais