Chamadas

REVISTA 2i | ESTUDOS DE IDENTIDADE E INTERMEDIALIDADE

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 5 (2022) : FACES E ÂNGULOS DA INTERMEDIALIDADE: TERMINOLOGIA E DISCURSO INTERSEMIÓTICOS

Data limite para submissão de colaborações: 15 janeiro 2022
Editores: Ana Cláudia Munari Domingos e Lars Elleström

Apresentação

Em Cultura das mídias, cuja primeira edição é de 1992, Lúcia Santaella já apontava para o modo como sobretudo as instâncias de produção e consumo de bens culturais reinventavam-se a partir dos novos meios. Em 2006, em Convergence culture, Jenkins, a partir do viés de uma economia da cultura e do entretenimento, propunha pensar essas mudanças a partir da convergência das mídias, focalizando então a internet e, assim, sinalizando para a contribuição dos consumidores. Ainda que Jenkins utilize o verbo to "colide" para falar das (rel)ações entre as "velhas" e "novas" mídias, é a mesma linha de pensamento de Santaella que se manifesta: as mídias não se excluem, elas interagem de diferentes formas.

É assim que nos anos 90 o conceito de "intermidialidade" é utilizado para colocar em xeque antigas noções que, ainda hoje, são utilizadas na compreensão das relações entre as mídias: a própria noção de mídia; a perspectiva da arte como objeto de análise; a interdisciplinaridade; a intertextualidade.

Claus Clüver, em um de seus textos cabais para os estudos dos fenômenos intermidiais, publicado em 1997, salientava para a perspectiva transdisciplinar dos "estudos interartes", a partir de conceitos então pouco conhecidos, seja pela Teoria da Literatura, na Literatura Comparada, seja nos Estudos Culturais, como tradução intersemiótica e ekphrasis. Ainda que Clüver tratasse das relações intermidiais a partir dos Estudos Interartes, como deixa claro o título de seu trabalho, ele mostra como pesquisadores já traziam à tona essas interações a partir de formas e textos que subvertem a ideia das artes como um critério conceitual para a análise desses fenômenos. É através de dois trabalhos, "Inter textus / inter artes / inter media" e "Intermediality and interart studies", publicados em 2001 e 2008, respectivamente, que Clüver atualiza esse foco de análise, demarcando um norte para os Estudos em Intermidialidade, sobretudo em Língua Portuguesa. Em 2005, a criação do Grupo de Pesquisa Intermidialidade junto ao CNPq, agência de fomento da pesquisa científica brasileira, coordenado pela Profa. Dra. Thaïs Diniz (UFMG) e pelo Prof. Dr. Clüver (Indiana University), concretiza esse campo de estudos no Brasil.

Essa pequeníssima e redutora síntese nos permite chegar aqui para afirmar outro lugar comum: a cultura midiática, a convergência dos sempre ou nunca novos meios, a transdisciplinaridade que a análise desses fenômenos exige, apontam para a "babel" que tem sido o discurso acadêmico sobre as relações intermidiais. Enquanto a diferença entre os múltiplos e distintos campos e áreas que observam os fenômenos intermidiais é positiva, como o é para as ciências em geral, o discurso que os focaliza torna-se problemático, visto, muitas vezes, contribuir para ruídos de comunicação e, muito mais, por deixar de ser cooperativo e colaborativo para a compreensão da comunicação, que é a razão fundamental e centralizadora dos estudos em Intermidialidade.

Esse dossiê, ao apontar essas questões, instiga para proposições conceituais e metodológicas, assim como análises de fenômenos a partir delas, que contribuam para um discurso transdisciplinar para os Estudos em Intermidialidade. Esse chamado, assim, intenciona encontrar os meios para o diálogo cujo discurso possa ser compreendido e debatido por pesquisadores de diferentes sistemas semióticos.

Principais temas acolhidos neste número da revista

  • Teorias, objetos e práticas dos Estudos em Intermidialidade
  • O conceito de mídia, midialidade, modo e modalidade
  • Categorizações e descrições dos fenômenos intermidiais
  • Os diferentes prefixos do discurso acadêmico sobre as mídias: inter, intra, multi, mix, trans
  • Metodologias para análise dos fenômenos intermidiais

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 4 (2021) : LITERATURA E FOTOGRAFIA: OUTRAS CARTOGRAFIAS DO OLHAR

Data limite para submissão de colaborações: 31 maio 2021
Editores: Isabel Cristina Pinto Mateus, José Cândido de Oliveira Martins e Duarte Belo

Apresentação

Desde as suas remotas origens na antiguidade clássica que a imagem "fotográfica" do real refletido numa superfície espelhada exerce um enorme poder sedutor sobre os homens. Narciso apaixona-se pelo seu próprio reflexo e perde-se nas águas, Perseu vê-se confrontado com a imagem de um outro refletida na superfície polida do escudo e vence a temível Medusa. Sedução não isenta de perigos, talvez por isso o pensamento sempre tenha desconfiado da imagem e dos seus poderes, não cessando de a analisar, de a interrogar, de construir narrativas em torno dela. Susan Sontag lembra que a realidade "has always been interpreted through the reports given by images" (On Photography), mas não é menos verdade que essas imagens são o resultado de um olhar, um modo particular de ver o real. "Uma foto é sempre invisível: não é ela que nós vemos", afirma R. Barthes em La Chambre Claire; em última instância, a fotografia confronta-nos com a nossa própria imagem.

Celebrando quase dois séculos de longa e intensa história, desde os primeiros daguerreótipos oitocentistas de Daguerre e Nièpce, passando pelos retratos de Hill e Nadar e as experiências pioneiras deste último na utilização da luz artificial ao captar as imagens dos subterrâneos de Paris ou nos ensaios da fotografia aérea, a Fotografia afirma-se como técnica e arte omnipresente e particularmente atuante no primeiro quartel do séc. XXI. Os novos meios digitais democratizaram a um ponto impensável o sonho analógico da Kodak nos finais de oitocentos, tornando a fotografia acessível a todos, disponível ao alcance de um telemóvel; o mundo global abriu-lhe novas paisagens e horizontes criativos, e o autorretrato digital, a "selfie", converteu-se numa das imagens icónicas da contemporaneidade, tendo em 2013 a designação sido reconhecida como palavra internacional pelo Oxford English Dictionary.

Desde o seu início, não é possível pensar a Fotografia sem conceder grande destaque às relações com outras artes e saberes, incluindo tensões e desafios entre as funções pragmáticas e a dimensão estética. Hoje mais do que nunca, em tempos de poéticas de hibridismo, a Fotografia tem uma vocação congenialmente interdisciplinar. Se as relações primordiais com a pintura e o cinema são conhecidas, hoje as possibilidades estéticas são infinitamente mais vastas, potenciadas pelas interfaces com várias linguagens (artísticas ou outras, particularmente as digitais, abrindo-se a formas híbridas intermediais (performing hybridity). O aparecimento dos drones e a imagem aérea do mundo ("aerial shot") abriram, por sua vez, relações intermediais que vão dos documentários às séries televisivas, alterando a nossa forma de olhar o mundo.

Face ao sugerido e numa cartografia do híbrido intermedial, numa sociedade como a atual, num horizonte pós-moderno, a Fotografia levanta hoje novas interrogações, face a problemáticas contemporâneas, desde a reinvenção no digital, à relação com outros média, sem esquecer o pós-humano, entre outras tendências do nosso tempo. Hoje mais do que nunca, impõem-se novas literacias da imagem, cumprindo assim a profecia de W. Benjamin: "O analfabeto do futuro será aquele que não souber ler as fotografias, e não o iletrado" (Pequena História da Fotografia).

Com o tema enunciado — "Literatura e Fotografia: Outras cartografias do olhar" — pretendemos assim abarcar novas cartografias fotográficas, tendo em conta renovadas identidades e intermedialidades. Por todas estas razões, entendemos muito pertinente refletir criticamente sobre estas temáticas, tendo em conta os tópicos a seguir apresentados.

Alguns tópicos acolhidos neste número da revista

  • Fotografia e formas de memória
  • Fotografia, paisagem, natureza
  • Fotografia e literatura
  • Fotografia e outras linguagens artísticas
  • Fotografia, identidades, retrato
  • Fotografia, corpo, género
  • Fotografia e ciência
  • Fotografia e narrativas digitais/intermediais
  • Pós-fotografia e pós-humano
  • Fotografia como performance