Chamadas

REVISTA 2i | ESTUDOS DE IDENTIDADE E INTERMEDIALIDADE

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 7 (2023) : ANIMALIDADES E ZOOPOÉTICA: DOS TEXTOS ÀS TEORIAS

Data limite para submissão de colaborações: 15 janeiro 2023
Editores: Sérgio Guimarães de Sousa e Ana Ribeiro

Apresentação

Marcado por diversas mutações, decisivamente acentuadas pelo incontido triunfo da tecnologia e pelo drástico fenómeno das alterações climáticas e do seu eco apocalíptico, o mundo socio-civilizacional de hoje afasta-se a passos largos da tradicional concetualização do humano enquanto instância de um lugar central e dominante na ecosfera.

Com efeito, é atualmente indesmentível a emergência de uma recodificação identitária através da qual se dá a erosão do antropocentrismo e a consequente reavaliação da força e da pertinência das espécies não-humanas nas condições de possibilidade de um ecossistema equilibrado e sustentável – ou seja: benéfico a todos os viventes.

A renúncia ao mundo regido pela convicção da inabalável superioridade humana (mundo hierárquico, vertical, tradicional) sobre as demais espécies e o investimento heurístico e estético-ideológico a favor de uma espécie de retorno a uma realidade primordial, em que o apelo do não humano, concebido em sentido razoavelmente lato, se faz (finalmente) ouvir, registam-se em todos os âmbitos.

Desde logo, nos mais vocacionados para o efeito, como é seguramente o caso da antropologia e da etologia (pense-se nos estudos de referência do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro ou em nomes como o da primatologista Jane Goodall e o do zoólogo e paleontólogo Stephen Jay Gould), mas também nos estudos literários com a ecocrítica, no conhecimento filosófico-ensaístico (e aqui, bem antes de Derrida e do seu emblemático ensaio O animal que logo sou e dos contributos filosóficos de Bruno Latour, convirá recuar até Montaigne, um dos possíveis marcos arqueológicos, em rigor, dos Animal Studies), no mundo económico-financeiro (com a chamada economia circular ou sustentável), para não falar nas figurações artísticas, sobretudo as de vasta difusão discursivo-narrativa (o cinema é disso perfeito exemplo).

Todas estas vertentes, e muitas outras, cada uma a seu modo, sensibilizam-nos para o facto de não podermos continuar a relacionarmo-nos com a natureza e com os seres não-humanos que nela se alojam como se esta e estes não passassem de uma mera moldura da nossa (problemática) presença. Numa palavra, todas as formas de vida afiguram-se essenciais à sobrevivência.

É objetivo deste 7.º número da Revista 2i, subordinado ao tema animalidades e zoopoética: dos textos às teorias, problematizar a alteração de paradigma em curso, prestando particular atenção ao modo como esta mudança sensível à legitimidade de todas as formas de vida se manifesta nos seus textos de referência, sejam eles fundadores ou recentes, condição essencial para se perceber como ocorre a fundamentação teórica de um new world. Aquele em que ser humano, ao arrepio de uma suposta ontologia imutável e sem ressalvas, deixou de significar um centro cardinal na órbita do qual tudo teria de gravitar.

Ser humano na conjuntura de hoje, a do Antropoceno, é, antes de mais, ser capaz de desarrumar categorias tradicionais, manifestando o impacto da existência humana em função também dos restantes seres viventes, de modo a conter uma provável, mas ainda não inexorável, extinção.

Assim, esta chamada de artigos deve ser entendida como um convite a contributos interdisciplinares suscetíveis de indagarem e problematizarem os textos e as teorias oriundos da zoopoética e dos animal studies nas suas diversas implicações: crenças, normas, práticas significantes, valores, expectativas, repertório de possibilidades, etc.

Possíveis tópicos de reflexão:

  • Limiares Homem/Animal;
  • Alegorizações antropomórficas e zoomórficas;
  • Zoofilia e antropozoologia;
  • Animalidades e Antropoceno;
  • Ecossistemas sustentáveis;
  • Recodificações identitárias;
  • Utopias, distopias e pós-humano.

 

CHAMADA DE ARTIGOS — Nº 6 (2022) : A PROSOPOPEIA HOJE: POÉTICAS E POLÍTICAS

Data limite para submissão de colaborações: 15 julho 2022
Editores: Amândio Reis e José Bértolo

Apresentação

No seu sentido original, a figura retórica da prosopopeia consiste em "pôr o discurso na boca dos outros". Assim, Quintiliano define-a como um recurso que permite "apresentar os pensamentos íntimos dos nossos adversários como se eles estivessem a falar consigo mesmos" (Institutio Oratoria IX, 2, pp. 29-32). Enquanto dádiva ou imposição do discurso, portanto, e ainda que seja norteada pela verosimilhança, a prosopopeia põe muitas vezes em cena uma crise da identidade, um desafio aos preceitos da representação realista e uma concretização em linguagem de uma "impossibilidade natural" (Riffaterre, 1985, p. 110).

Se a generalidade das definições apresenta a prosopopeia como uma atribuição de vida ao inanimado e/ou de expressão ao ineloquente, fazendo dela a figura tutelar da criação de pessoas fictícias, pode inferir-se que todo os atos associados à ficção e à representação estão de algum modo vinculados ao fenómeno da prosopopeia. No entanto, tornando mais preciso o uso desta figura, ela tende a associar-se sobretudo à personificação, ou seja, à atribuição de faculdades humanas a objetos ou seres não-humanos. Em suma, por via de um mecanismo atuante da linguagem, a prosopopeia visa "dar um nome, um rosto ou uma voz a alguma coisa que não os possui" (Miller, 2016, p. 107).

Na história e na crítica da literatura, a prosopopeia tem uma presença discreta, mas importante. O género da fábula, por exemplo, assenta num princípio de antropomorfismo, e a literatura gótica oferece-nos uma vasta galeria de figuras retratadas que se emancipam das molduras em que estão contidas, esculturas que ganham vida, ou seres autómatas, de que é um caso paradigmático Der Sandmann, de E.T.A. Hoffmann, que inspirou Sigmund Freud na conceptualização do Unheimliche como o que é reconhecível no estranho.

Porém, não obstante as suas raízes na retórica e no âmbito da literatura, a prosopopeia estende-se aos domínios de outras artes. Na história da pintura, são frequentes as representações que a tematizam, regressando, por exemplo, ao episódio ovidiano da transformação da Galateia de marfim em carne e osso, por artistas como Edward Burne-Jones ou Jean-Léon Gérôme. No cinema, a prosopopeia pode ser analisada do ponto de vista temático (em histórias de fantasmas, autómatas, animais que falam, robots) e também teórico. Por um lado, vários pensadores dotaram a câmara de qualidades eminentemente humanas ao descrevê-la como um "cine-olho" (D. Vertov) e atribuir-lhe "uma inteligência maquínica" (J. Epstein), isto é, subjetividade e consciência. Por outro lado, o cinema oferece muitas vezes planos subjetivos que dão acesso ao ponto de vista de seres não-humanos e objetos inanimados (o burro de Au Hasard Balthazar, de Robert Bresson, ou a boneca de Aniki Bobó, de Manoel de Oliveira). Além disso, tendo em conta a própria natureza do medium, que associa a imagem à palavra, ou o rosto à fala, e a sua relação intrínseca com o fantasmagórico e o espectral, o cinema revela-se um dispositivo especialmente adequado à prosopopeia enquanto "ficção de uma apóstrofe a uma entidade ausente, morta ou sem voz, oferecendo-lhe a possibilidade de resposta e conferindo-lhe o dom da palavra" (De Man, 1984, p. 77).

Desde a antiguidade, mas também no contexto contemporâneo, multimédia, no qual ela encontra funções novas e outras possibilidades de realização, a prosopopeia serve igualmente propósitos poéticos e políticos. A par de estudos de narratologia e estilística, no âmbito dos animal studies, da ecocrítica, do pós-humanismo ou da thing theory tem havido um crescente interesse em questionar conceções antropocêntricas da vida e da arte, procurando colocar o não-humano no centro das indagações, dando-lhe rosto e voz. Assim, o n.º 6 da Revista 2i pretende reavaliar conceptualizações e usos da prosopopeia nas várias artes, ao longo da História e em contexto interdisciplinar.

Alguns tópicos possíveis de reflexão:

  • A prosopopeia e outras figuras de retórica (personificação, apóstrofe, alegoria, dialogismo, hipotipose, etopeia);
  • Ficção, narrativa e corporizações da prosopopeia: esculturas, retratos, autómatas, fantasmas, divindades e entidades sobrenaturais;
  • A prosopopeia e o Unheimliche;
  • Prosopopeia e morte: o fantasmagórico e o espectral;
  • Prosopopeia, sonho, alucinação e surrealismo;
  • Marionetismo, ventriloquismo e a máscara;
  • Prosopopeia, descrição e alegoria (paisagens, objetos, abstrações);
  • Teoria dos géneros: horror, conto de fadas, fábula, ficção científica, epitáfio;
  • Prosopopeia como questionação do antropocentrismo: estudos do animal, ecocrítica, pós-humanismo;
  • Magia, animismo, hierofania, possessão;
  • A prosopopeia no Antropoceno: a "vida" dos elementos minerais e geológicos;
  • Metáforas prosopopeicas no pensamento sobre a arte (o olho da câmara, a mudez ou a expressividade do papel, a corporeidade da pedra, etc.);
  • Thing theory e a vida dos objetos.

Referências:

  • De Man, P. (1984). The Rhetoric of Romanticism. Nova Iorque: Columbia UP.
  • Epstein, J. (2014). Écrits complets, Volume V, 1945-1951: L’Intelligence d’une machine, Le Cinéma du Diable et autres écrits. Paris: Independencia Éditions.
  • Miller, J. H. (2016). Western Theories of Poetry: Reading Wallace Stevens's "The Motive for Metaphor". In Ranjan Ghosh & J. Hillis Miller, Thinking Literature across Continents. Durham e Londres: Duke UP.
  • Quintilianus, M. F. (1959). The Institutio Oratoria, edição e tradução de H.E. Butler. Cambridge: Harvard UP, The Loeb Classical Library.
  • Riffaterre, M. (1985). Prosopopeia. Yale French Studies, 69 (107-123).
  • Vertov, D. (1984). Kino-Eye: The Writings of Dziga Vertov, edição de Annette Michelson e tradução de Kevin O’Brien. Berkeley/Los Angeles/Londres: University of California Press.